setembro 29, 2007

A propósito da educação (física) do que é, e do que é suposto ser!

“Ex.ma Senhora Ministra da Educação:

Um dia destes colocaram, no placar da Sala dos Professores, uma lista dos nossos nomes com a nova posição na Carreira Docente.
Fiquei a saber, Sr.ª Ministra, que para além de um novo escalão que inventou, sou, ao final de quinze anos de serviço, PROFESSORA.
Sim, a minha nova categoria, professora!
Que Querida! Obrigada!
E o que é que fui até agora?
Quando, no meu quinto ano de escolaridade, comecei a ter Educação Física, escolhi o meu futuro. Queria ser aquela professora, era aquilo que eu queria fazer o resto da minha vida...
Ensinar a brincar, impor regras com jogos, fazer entender que quando vestimos o colete da mesma cor lutamos pelos mesmos objectivos, independentemente de sermos ou não amigos, ciganos, pretos, más companhias, bons ou maus alunos. Compreender que ganhar ou perder é secundário desde que nos tenhamos esforçado por dar o nosso melhor. Aplicar tudo isto na vida quotidiana...
Foi a suar que eu aprendi, tinha a certeza de que era assim que eu queria ensinar! Era nova, tinha sonhos...
O meu irmão, seis anos mais novo, fez o Mestrado e na folha de Agradecimentos da sua Tese escreve o facto de ter sido eu a encaminhá-lo para o ensino da Educação Física. Na altura fiquei orgulhosa! Agora, peço-te desculpa Mano, como me arrependo de te ter metido nisto, estou envergonhada!
Há catorze anos, enquanto, segundo a Senhora D. Lurdes Rodrigues, ainda não era professora, participava em visitas de estudo, promovia acampamentos, fazia questão de ter equipas a treinar aos fins-de-semana, entre muitas outras coisas. Os alunos respeitavam-me, os meus colegas admiravam-me, os pais consultavam-me. E eu era feliz... Saia de casa para trabalhar onde gostava, para fazer o que sempre sonhará, para ensinar como tinha aprendido!
Agora, Sr.ª Ministra, agora que sou PROFESSORA, que sou obrigada a cumprir 35 horas de trabalho, agora que não tenho tempo nem dinheiro para educar os meus filhos. Agora, porque a Senhora resolveu mudar as regras a meio (Coisa que não se faz, nem aos alunos crianças!), estou a adaptar-me, não tenho outro remédio: Entrego os meus filhos a trabalhadores revoltados na esperança que façam com eles o que eu tento fazer com os deles. Agora que me intitula professora eu não ensino a lançar ao cesto ou a rematar com precisão à baliza, não chego, sequer a vestir-lhes os coletes...
Passo aulas inteiras a tentar que formem fila ou uma roda, a ensinar que enquanto um "burro" mais velho fala os outros devem, pelo menos, nessa altura, estar calados. Passo o tempo útil de uma aula prática a mandar deitar as pastilhas elásticas fora (o que não deixa de ser prática) e a explicar-lhes que quando eu queria dizer deitar fora a pastilha não era para a cuspirem no chão do Pavilhão... E aqueles que se recusam a deita-la fora porque ainda não perdeu o sabor?
(Coitados, afinal acabaram de gastar o dinheiro no bar que fica em frente à Escola para tirarem o cheiro do cigarro que o mesmo bar lhes vendeu e nunca ninguém lhes explicou o perigo que há ao mascar uma pastilha enquanto praticam exercício físico). E os que não tomam banho? E os que roubam ou agridem os colegas no balneário?
Falta disciplinar?
Desculpe, não marco!
O aluno faz a asneira, e eu é que sou castigada? Tenho que escrever a participação ao Director de Turma, tenho que reunir depois das aulas (E quem fica com os meus filhos?). Já percebeu a burocracia a que nos obriga? Já viu o tempo que demora a dar o castigo ao aluno? No seu tempo não lhe fez bem o estalo na hora certa?
Desculpe mas não me parece!
Pois eu agradeço todos os que levei!
Mas isto é apenas um desabafo, gosto de falar, discutir, argumentar com quem está no terreno e percebe, minimamente do que se fala, o que não é, com toda a certeza, o seu caso.

Bastava-lhe uma hora com o meu 5ºC... Uma hora! E eu não precisava de ter escrito tanto! E a minha Ministra (Não votei mas deram-ma... Como a médica de família, que detesto, mas que, também, me saiu na rifa e à qual devo estar agradecida porque há quem nem médico de família tenha ‐ outro assunto) entendia porque não conseguirei trabalhar até aos 65 anos, porque é injusto o que ganho e o que congelou, porque pode sair a sexta e até a sétima versão do ECD que eu nunca fui nem serei tão boa professora como era antes de mo chamar!
Lamento profundamente a verdade!


Ana Luísa Esperança
PQND da Escola EB 2,3 Dr. Pedro Barbosa
Viana do Castelo"
in ESCOLA INFORMAÇÃO
nº25 Junho/Julho 2007
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Cara colega,
cruzei-me há dias com este seu texto, por entre conversas e revistas, em plena sala dos professores. E não podia deixar de lhe dar os parabéns por conseguir trazer para o papel este sentimento comum a tantos, tantos! Assim, permita-me, por favor, que a subscreva quando diz:

...Quando, no meu quinto ano de escolaridade, comecei a ter Educação Física, escolhi o meu futuro. Queria ser aquela professora, era aquilo que eu queria fazer o resto da minha vida...
Ensinar a brincar, impor regras com jogos, fazer entender que quando vestimos o colete da mesma cor lutamos pelos mesmos objectivos, independentemente de sermos ou não amigos, ciganos, pretos, más companhias, bons ou maus alunos. Compreender que ganhar ou perder é secundário desde que nos tenhamos esforçado por dar o nosso melhor. Aplicar tudo isto na vida quotidiana...

e que altere apenas o final da sua frase para:

Foi a suar que eu aprendi, tenho a certeza de que é assim que eu quero ensinar! Sou nova, ainda sonho!

setembro 27, 2007

Conjecturas

Uma das questões já aqui focadas anteriormente pelo Miguel Pinto e que marca este ano lectivo, vindo já detrás, é a existência de uma carga horária diminuida e diminuta para a disciplina de EF nos cursos de educação e formação, os CEF's e nos cursos profissionais do ensino secundário.
Que explicação válida a dar para tal situação?
Atrevo-me a tecer uma vaga conjectura: algumas formas de desporto moderno nasceram nos colégios educativos ingleses frequentados pelas classes "altas" da sociedade inglesa. Tinham por objectivos educar a juventude nos valores então considerados importantes e ser uma forma de lazer a que se podiam dar os filhos dessas classes, já que essas formas de desporto exerciam grande motivação sobre essas camadas de juventude. Os outros, os filhos das classes "baixas" ou não andavam nas escolas, ou nas que andavam tinham currículos meramente utilitaristas despidos de luxos como o desporto.
Será que agora, em Portugal, não acontecem "coisas" parecidas como essas, a uma escala amenizada? É que nos currículos gerais a EF existe com uma carga lectiva maior.
Mas por amor de Deus. Que não haja nenhuma cabecinha pensadora no nosso actual ministério da Educação, tão talhado para cortes, que se lembre de cortar mais uma vez no que não deve. É que também se pode nivelar por cima.

setembro 11, 2007

Não desistam. Tenham coragem.

Neste início de ano lectivo gostaria de partilhar as minhas preocupações face a alguns comportamentos que se têm vindo a registar na relação educativa, quer no seio da família quer no ambiente escolar – a indisciplina e a agressividade. Não posso estar mais de acordo com uma grande parte dos psicólogos e sociólogos que têm efectuado estudos e aprofundado este tipo de questões. Tem-se assistido a uma tremenda confusão de conceitos. A disciplina e os afectos não podem ser interpretados, nem pelos pais nem pelos professores, como sendo sinónimos de permissividade, passividade e facilitismo.
Educar é mostrar o caminho estabelecendo limites e exercendo a autoridade sem receios. É imprescindível dizer não quando é preciso. Às vezes é extremamente difícil mas é vital.
A autoridade conquista-se sempre que mantemos com os nossos filhos ou com os nossos alunos vínculos emocionais e afectivos partilhando, de forma honesta e justa, as nossas angústias e as nossas alegrias. É urgente humanizar os nossos jovens fazendo com que controlem a sua agressividade, sejam mais solidários e desenvolvam interesses, tornando-se mais interventivos e críticos.
Os jovens são naturalmente inseguros e, certamente, não são as atitudes de facilitismo, irresponsabilidade, impunidade, permissividade e descomprometimento que fazem deles indivíduos íntegros, motivados, emocionalmente estáveis e bem sucedidos.
Todos sabemos que não há receitas milagrosas mas, a verdade é que os padrões educativos, os critérios, a afectividade e o respeito pelas normas, estabelecidos e enraizados, desde o 1º dia, parecem resultar positivamente e contribuir para uma felicidade maior dos nossos jovens. Os adolescentes precisam de regras para se sentirem seguros. Estas podem funcionar como um estímulo desde que sejamos consistentes, consequentes e firmes no seu cumprimento. Vale a pena tentar, sobretudo se pensarmos naqueles jovens a quem só a Escola ousa dizer-lhes NÃO. Em casa ninguém lhes coloca limites, obrigações e regras. Ninguém se atreve a contrariá-los!!!
Poderão os professores ajudar os pais nesta missão?
Com todas as dificuldades e dúvidas não resisto em deixar um apelo a todos os educadores – Não deixem nem queiram ser apelidados de: “Educadores paralisados”; “prostitutos do afecto”; “frouxos”; “marionetas”, “ansiosos permissivos”; Srs Sim, Sim.
Vamos encarar os problemas de frente e, como diz Javier Urra, sejamos realmente Pais/Professores, o que é diferente de termos Filhos/Alunos.

Talvez valha a pena pensar nisto!!!

Clementina Campelo

setembro 01, 2007

Reabertura

Reabrimos o blogue neste 1º dia de Setembro deixando para trás uma curta pausa lectiva, insuficiente para regenerar as feridas resultantes das alterações ao ECD e do 1º concurso para professores titulares.

Esta reentrada, algo anacrónica, não pode servir de pretexto para desviarmos o olhar das rotinas de planeamento e de preparação do ano lectivo. Há que enfrentar os obstáculos normativos noutros palcos redobrando se possível o vigor, e cuidar da nossa área disciplinar com o mesmo afinco de sempre. É este o meu desafio!
E enquanto aguardamos que o resto da equipa regresse com energia suficiente para nos provocar a reflexão, deixo-vos um assunto que me tem deixado bastante perplexo: a pretensa inexequibilidade na operacionalização dos programas de Educação Física dos cursos de educação e formação.
Como a cama é curta para se deitarem todas as disciplinas que fazem parte da matriz curricular destes cursos, houve necessidade de emagrecer os módulos de matéria até porque o tempo semanal de aulas está nos limites da razoabilidade. E onde encontro a inexequibilidade? Na dificuldade em viabilizar um conjunto de objectivos, nomeadamente, aqueles que se prendem com a aplicação dos princípios de treino e o desenvolvimento da Aptidão Física na perspectiva da Saúde (objectivos centrais para a disciplina).

Várias questões se poderiam colocar após esta constatação. Mas há uma questão central que tem de ser encarada de frente: Se as organizações profissionais de Educação Física e as sociedades científicas da mesma área, reivindicam para a disciplina de Educação Física um mínimo de três horas semanais para poder cumprir as incumbências pedagógicas que lhe estão atribuídas, será menos lesivo para os alunos reclamar junto da administração o respeito das tais 3 horas semanais esgotando o crédito horário anual (30 horas anuais) até ao final do 1º período? Ou será que há outras razões, além das razões corporativas que se prendem com a criação de horários, para aceitarmos, passivamente, os 45 minutos semanais distribuídos ao longo do ano lectivo?

julho 03, 2007

A Lei de Bases - a Actividade Física e o Desporto

Marcelo Rebelo de Sousa «Em defesa do Desporto»
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Na apresentação da obra «Em Defesa do Desporto», a qual apelidou de «apelo político», Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se hoje em tom crítico à Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto, afirmando que a divisão, precisamente, entre actividade desportiva e desporto, que ela preconiza, «é um pecado mortal, porque uma coisa não se pode dissociar da outra».
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O professor Marcelo Rebelo de Sousa falava na sede do C.O.P. no lançamento da obra «Em Defesa do Desporto – Mutações e Valores em Conflito», coordenada por Jorge Olímpio Bento e José Manuel Constantino e editada pela Editora Almedina, com o apoio do Comité Olímpico de Portugal.
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«Todas as pessoas deviam ler este livro, a começar pelos governantes. É preciso colocar o desporto na agenda política, porque é um tema da maior importância, quando se fala de Educação. O Desporto é uma boa causa para os nossos tempos», afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, que considerou esta obra um primeiro passo muito relevante, que precisa de uma sequência, inclusive com o recurso a meios áudio-visuais.
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«É preciso não deixar arrefecer este entusiasmo», reforçou.
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O apresentador da obra, praticante diário de desporto, fez uma análise do carácter transversal, universal e secular do desporto, da Antiguidade ao pós-contemporâneo, defendendo-o como uma causa civilizacional em várias dimensões, com especial incidência na sua importância na educação e no ensino – que considerou subalternizarem em Portugal esta disciplina fundamental à vida humana.
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E concluiu que os diversos ensaios que compõem a obra ajudam a compreender e a estimular a defesa do desporto, apontando-o como um instrumento fundamental para estudantes, professores e desportistas em geral – no fundo, todas as pessoas, mesmo as que abominam o Desporto, mas acabam por fazer caminhadas regulares, nem que seja na luta contra a obesidade.
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Vicente Moura céptico
Na apresentação do livro coordenado por José Manuel Constantino e Jorge Olímpio Bento, o presidente do Comité Olímpico de Portugal considerou que a actual Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto, «muito surpreendentemente, fractura o conceito integrador preconizado pelas instâncias da União Europeia, opondo a actividade física à prática desportiva regular e de alto rendimento».
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No seu discurso, Vicente Moura reafirmou que não se opõe à mudança, «muito pelo contrário, como atesta o percurso do Comité ao longo da última década», mas declara-se «contrário à estatização e partidarização do Desporto».
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O C.O.P. e o movimento associativo – declarou – «olham com cepticismo a deriva errática, conceptual e legislativa», concluindo que neste milénio pouco foi acrescentado e «persistem metas por alcançar e muitas etapas por cumprir, de que são exemplo o baixo índice de prática desportiva, atestado pelo Eurobarómetro».
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O dirigente olímpico defendeu mais uma vez um «desporto organizado, competitivo, sustentável, mas respeitador das regras, regulado, mas nunca estatizado, juridicamente ordenado, mas nunca amordaçado, fiscalizado como tudo na coisa pública, mas preservando autonomia gestionária e o respeito dos órgãos legitimados».
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«Em Defesa do Desporto»
Vicente Moura foi o autor do prefácio da obra agora publicada, uma colectânea de textos de «reputados especialistas do sector desportivo», a quem agradeceu por terem sabido associar o C.O.P. a esta produção.
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O C.O.P. não teve dúvidas em se associar aos autores, no quadro do Programa de Apoio à Produção Editorial, previsto no programa eleitoral para a XXIX Olimpíada – referiu.
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«Em defesa do Desporto – Mutações e Valores em Conflito» reúne ensaios de múltiplos autores que olham o Desporto «de modo a revelar a multiplicidade dos seus aspectos e a afirmar a sua valia pedagógica, cultural e social, antropológica e axiológica».
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A edição é coordenada por Jorge Olímpio Bento, Presidente da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e da Comissão Multidisciplinar do C.O.P., e por José Manuel Constantino, presidente da Oeiras Viva, membro da Academia Olímpica de Portugal e antigo presidente do Instituto do Desporto de Portugal.
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Os autores vêem o Desporto moderno como «emanação e expressão dos princípios básicos da sociedade industrial, tendo como referência cimeira e estruturante, o princípio do rendimento», tendo-se transformado numa «pluralidade de motivos e finalidades, de sujeitos e praticantes, de modelos e cenários», à medida que a própria sociedade evoluiu.
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junho 29, 2007

Para já, está nas nossas mãos...

Se para nós, professores de Educação Física, a fundamentação desta área disciplinar é indiscutível e todos nos esforçamos por fazer um trabalho sério, pedagógica e cientificamente, por vezes esquecemo-nos que, no seio da própria escola, esta realidade não é, de todo, conhecida.
De vez em quando, surgem aquelas “bocas” que a nós nos parecem antiquadas e ultrajantes para a nossa condição profissional: quando se discute a importância da avaliação nesta disciplina ou quando nos “chutam para canto" sem mais nem menos, a propósito duma qualquer questiúncula, relativamente à qual nem passa pela cabeça dos nossos colegas colocar a EF ao mesmo nível de qualquer outra. Sentimo-nos tentados a indignar-nos e a hostilizar de volta os nossos interlocutores.

Mas, colegas, frequentemente essa estratégia não é a melhor solução. Acreditem que na maioria das vezes este comportamento não pretende mesmo ser ofensivo.
E isto é verdade, não é só ingenuidade! É que muitos colegas não fazem ideia do que é a EF actualmente: dizem lembrar-se dumas pandeiretas e duns equipamentos desconfortáveis… Uma colega, há uns tempos disse-me que havia uns jogos de Futebol de rapazes e as raparigas iam até lá, para bater palmas. São estas as suas referências!

Quando nos ouvem falar em Patinagem, Hóquei em Patins, Escalada, Chá-chá-chá, até chegam a perguntar se isso se passa lá na escola!! Ou se é alguma actividade extracurricular! Já para não falar da admiração que expressam quando se apercebem que afinal, na Educação Física, também existem preocupações com a transmissão dos valores da nossa cultura, como é o caso dos nossos Jogos e Danças Tradicionais Portugueses !!

Há pouco tempo, em conversa com uma colega que eu prezo bastante, sobre as actividades desportivas da sua filha, registei a seguinte afirmação, que me deixou incrédula: “Para mim essas coisas da ginástica – referindo-se à vela – são completamente anti-natura!” Mas o facto é que se preocupa, que eu sei, que a filha pratique desporto, porque lhe reconhece benefícios. É evidente que lhe expliquei, com paciência, que anti-natura é a nossa capacidade actual em nos mantermos sentados durante horas e obrigarmos os miúdos a habituarem-se a esse estilo de vida. Se resultou? Espero que sim. Acredito que sim… e que são precisas estas intervenções localizadas, para mudar algumas mentalidades.

Mas o que mais me preocupa nem é isso: acho que neste momento todo o cuidado é pouco e parece-me que há grandes disparidades na postura nos nossos colegas de EF quanto à avaliação:
- uns assumem publicamente que não se importam de colar a nota de EF à média do aluno “para não o prejudicar”!!
- outros parece que estão a aproveitar o “poder” da avaliação para “mostrar quem manda”!!

Qual destas a mais perigosa para a implementação das medidas mais recentes…Qualquer uma delas por si só e ambas, em conjunto, podem deitar a perder aquilo que nos está a ser oferecido, neste momento. Para já, está nas nossas mãos, … mas pode deixar de estar!

Susana Marques

junho 26, 2007

Cursos de Educação e Formação (CEF)

Só o nome dá para arrepiar. Educação e formação? Mas, adiante…
Estes cursos de formação profissional acelerada não dispensam a Educação Física. O CEF de electricistas de instalações, por exemplo, prevê um total de 30 horas anuais de Educação Física. A pergunta que se impõe, antes mesmo de conhecer a ambição dos autores dos programas, é a seguinte: ensinar o quê em 45 minutos de aula por semana?
Estou aberto a sugestões...

A escola do faz-de-conta está prestes a implodir!

junho 22, 2007

SNEP

Em França, - devido à grande dinâmica autónoma dos professores de Educação Física em torno das questões que dizem respeito à profissão e à EF - , desde há dezenas de anos que existe um sindicato nacional dos professores de EF, o SNEP.
Actualmente em luta dado que vários dos direitos dos professores e das horas dedicadas à EF e ao Desporto Escolar estão a ser cortadas, este sindicato possui um site na internet que pode ser visitado aqui.
Mas não se pense que este sindicato tem uma visão corporativa e isolada da profissão e da EF. Encontra-se solidáriamente unido dentro de uma Federação de Sindicatos da Educação, a FSU, que é a mais representativa das estruturas sindicais docentes em França e que representa todos os níveis da Educação.
É realmente de relevar e aplaudir que professores de uma área específica tenham conseguido, pela capacidade e dinâmica historicamente adquirida, apresentar uma capacidade organizativa como esta.

junho 15, 2007

Ensino do jogo

Com a publicação do livro "O ensino dos jogos desportivos" em 1994, o Centro de Estudos dos Jogos Desportivos (CEJD) da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto deu voz a um movimento de renovação das ideias e das práticas de ensino dos jogos desportivos colectivos iniciado no âmbito das didácticas e das metodologias especificas das respectivas modalidades desportivas, o basquetebol, o futebol, o voleibol e o andebol. A ambição era então, tal como hoje, colocarmo-nos na linha da frente do esforço de reconceptualização e de investigação do ensino dos jogos, acompanhar as correntes mais avançadas e, sobretudo, influenciar as práticas de ensino nas escolas e nos clubes desportivos.

A nível internacional, o Modelo de Ensino de Jogos para a Compreensão (Teaching Games for Understanding – TGfU) constituiu-se como uma poderosa força de influência e um fórum de debate e de pesquisa sobre os programas, os propósitos, os conteúdos e os processos de ensino e os problemas de aprendizagem dos jogos desportivos, realizando sob seu lema uma conferência internacional, cuja quarta edição será organizada no próximo ano pela Universidade de British Columbia em Vancouver.

Outra referência capital para o movimento de reforma do ensino dos jogos é o modelo de educação desportiva, concebido por Siedentop, cuja aplicação tem sido também investigada em diferentes contextos de ensino. Em ambos os modelos, as linhas de ruptura com as abordagens mais tradicionais situam-se não apenas ao nível dos conteúdos a privilegiar, mas também ao nível dos métodos e estratégias de instrução, ao nível da configuração dos papéis e responsabilidades de quem ensina e quem aprende e ao nível dos contextos e cenários de aprendizagem. Evitando a cristalização destes modelos, a investigação tem procurado desenvolvê-los e refiná-los, assim como tem ensaiado modelos híbridos, adaptados às especificidades culturais e sociais de diferentes países.

Para além destes modelos curriculares que emergem e se desenvolvem no seio da comunidade académica através dos ensaios, da crítica e da investigação empírica, temos as concepções pessoais e as práticas de ensino dos jogos que os professores e treinadores desenvolvem a partir das perspectivas que filtram dos modelos curriculares formais, das diferentes tradições de ensino dos jogos, e das soluções que constroem a partir da sua experiência. A aproximação entre os modelos curriculares formais e os modelos pessoais de ensino dos jogos reclama a aproximação, o diálogo e o conhecimento mútuo das perspectivas de quem está primordialmente interessado em estudar o ensino do jogo e quem tem a incumbência de efectivamente o ensinar. A investigação das práticas de ensino dos jogos, indagando os propósitos e os valores subjacentes, a natureza e arranjo e os contextos sociais das actividades e tarefas de aprendizagem, de treino e de competição, as concepções, os papéis e as avaliações dos diferentes intervenientes no processo de ensino e aprendizagem, pode gerar conhecimento de grande relevância para a melhoria do ensino e para uma melhor compreensão do potencial educativo dos jogos desportivos.

Amândio Graça

PS: resumo da conferência a apresentar ao I Congresso Internacional dos Jogos Desportivos, Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, 12 a 14 de Julho de 2007

http://www.fade.up.pt/congressojd/

junho 07, 2007

Sugestão de sites sobre TGFU.

Tim Hooper é um professor universitário canadiano que disponibiliza já, há varios anos, um site onde se encontram muitos textos e materiais relativos à EF. Este professor está muito envolvido na corrente TGFU, Teaching Games for Understanding, que é uma corrente "nova" de ensino dos jogos, lançada no início dos anos 80 por professores ingleses e que trouxe uma nova respiração à forma de ensinar os jogos alternativa à forma tecnicista tradicional.
Eu sou um fã desta corrente, digo desde já. Nela encontro muito de interessante para o trabalho e a atitude dos professores de EF.
A ligação para para o site de Tim Hooper.
Outras ligações interessantes sobre esta corrente:
-um site com videos interessantíssimos de um fundador desta corrente: Thorpe.
-um site que pretende ser a divulgação institucional da corrente. Neste site pode-se encontrar o 1.º livro em .pdf sobre a corrente, assim como vários artigos fundadores.
Depois de lá passearem, , caso não os conheçam, talvez possamos falar um pouco sobre a corrente.

maio 29, 2007

Medida sensata!

Comunicado do Conselho de Ministros de 24 de Maio de 2007

"Decreto-Lei que procede à segunda alteração ao Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de Março, estabelecendo novas matrizes para os currículos dos cursos científico-humanísticos do ensino secundário

[...] Consagra-se, ainda, o fim da redução da carga horária semanal na disciplina de Educação Física, por se considerar estarem reunidas as condições logísticas para que esta disciplina funcione com duas unidades lectivas semanais.

[...] Estes reajustamentos ao currículo, que manterão o actual regime de avaliação, entrarão em vigor para o 10º ano no próximo ano lectivo e sucessivamente nos anos seguintes para os 11º e 12º anos."

Escola Pública quem és tu?

Apesar dos momentos difíceis que a Escola e o Sistema Educativo atravessam continuo a gostar de ensinar. Sou professora por convicção. E é exactamente porque vivo a Escola que estou preocupada com a confusão que se está a instalar no sistema educativo. Falo de programas, de rigor, de motivação, de organização, de igualdade, de estigma, de criatividade e de outras “coisas” que se relacionam com o “pulsar” da escola e da comunidade escolar. Antes que, também eu comece a ficar confusa, gostava de lançar algumas questões para partilhar a minha angústia face ao que está a acontecer. Não podemos assistir de “braços cruzados” àquilo que diz respeito a todos nós.

  • Porque continuam, os nossos governantes, a ignorar que existe uma grande percentagem de alunos a quem a escola e o gosto por aprender pouco ou nada dizem?
  • Porque insistem em querer ensinar conteúdos, embora falem de objectivos e competências, que se afastam dos reais interesses e motivações dos seus destinatários? Conhecerão os fazedores dos programas a Escola real?
  • Estará a Escola verdadeiramente empenhada em promover aprendizagens significativas para os alunos?
  • Não será desejável que o rigor e a exigência da Escola coabitem com a diferença?
  • O que mudou realmente na Escola?
  • Quem mudou na Escola?
  • O que é necessário mudar na Escola?
  • O que precisamos de fazer para que a Escola mude efectivamente?
Sem querer ferir susceptibilidades atrever-me-ia a dizer que a sociedade tem vindo a mudar mas a Escola pouco ou mesmo nada mudou. Nada daquilo que é essencial. A Escola foi aceitando como “normal” algumas práticas e comportamentos sem reflectir sobre as suas causas e efeitos.
Julgo ter havido pouca criatividade na elaboração dos currículos destinados aos alunos com dificuldades. Sim, digo com dificuldades porque não adianta escamotear este facto. Será correcto submeter estes alunos a um mesmo currículo? Quem deverá decidir? O aluno e o Encarregado de Educação? Terão eles argumentos para esta decisão? Este é um problema que se agrava quando falamos dos alunos que não gostam da Escola, isto é, aqueles que não querem aprender. O que fazer com estes alunos? Se é preciso mantê-los na Escola, porque não lhes ensinamos outras “coisas”? Porque insistem em querer ensinar-lhes Matemática se a Aritmética pode ser mais importante para a suas vidas? Este é só um exemplo, poderíamos arranjar muitos outros. Como podem estes alunos ter sucesso? Por favor, não confundam sucesso com nota positiva para passar. A isto chama-se camuflagem do insucesso. Este não é um caminho sério.
Falando de estigma, alguns agentes educativos, não concordam com a formação de turmas homogéneas. Não é esta uma forma de respeitar os ritmos de aprendizagem dos alunos? Não estaremos a descurar os bons e os muito bons? Não estará a Escola Pública de costas voltadas para os alunos bons? Não estará a Escola a pautar os seus horizontes e a nivelar o seu rigor por baixo? Penso que a Escola e os Professores não podem conduzir a sua acção só, ou na maioria das vezes, em função dos alunos problemáticos e dos alunos com dificuldades de aprendizagem. A Escola tem de ter um rumo bem definido e não pode desviar-se nem demitir-se das suas funções.

Clementina Campelo

maio 20, 2007

Parabéns

Ontem Telma Monteiro venceu a Taça do Mundo e obteve o apuramento para os próximos jogos olímpicos de Pequim.
Vanessa Fernandes está em primeiro lugar no ranking do Triatlo feminino.
Naide Gomes ainda recentemente obteve outro excelente resultado.
Parabéns a estas excelentes atletas.

maio 15, 2007

PEPSTEAM

Se no que respeita a blogs de Educação Física em França, a blogosfera é ainda muito raramente povoada, já no que concerne a sites sobre esta nossa matéria a França está muito bem representada tanto do ponto de vista institucional como de sites pessoais.
A sugestão que vos trago hoje é a de uma verdadeira plataforma de recursos em EF, - Pepsteam, - feita por professores e estudantes de EF, gratuíta e aberta a todos os que se queiram inscrever. É um verdadeiro mundo de recursos variados sobre os vários temas e actividades ligados à EF e desporto.
É preciso dizer que um facto que move muito os professores de EF em França é a necessidade de realização de algumas provas escritas e orais durante a carreira de professor. Daí a existência de um conjunto largo de materiais que têm a ver com esse tipo de provas.
Resta dizer que quem queira lá inscrever-se tem o dever de conhecer e respeitar as regras da casa, como é de bom tom em todo o lado.

maio 03, 2007

Caladinhas e quietinhas…

A desqualificação da actividade docente persegue objectivos económicos claros: A redução da despesa pública. É um fenómeno perverso pelos seus efeitos na qualidade das práticas educativas; É um fenómeno oportunista porque busca a legitimação em baldios pedagógicos, como por exemplo, a oferta da educação física no 1º ciclo do ensino básico; É um fenómeno contagioso porque poderá alastrar a todo o ensino básico e secundário.

As recentes medidas legislativas de generalização da oferta do desporto escolar [no prolongamento horário] às escolas do 1º ciclo do ensino básico oficial tipifica este desígnio económico. As autarquias assumem as competências de organização da actividade física sem existir a garantia de condições de praticabilidade e de recursos humanos qualificados. Hoje, é perfeitamente possível “leccionar” desporto escolar num pátio de escola, num vão de escada ou numa sala exígua, orientado por monitores ou alunos “pré-licenciados”. A precariedade no emprego empurra licenciados de educação física para este tipo de cenários tornando-os coniventes com a sua própria desqualificação.

Apesar de continuar a existir a obrigatoriedade da Expressão Físico-Motora no plano curricular do 1º ciclo do EB, a possibilidade da oferta de escola de DE acaba por ter uma efeito dissuasor nos professores titulares, o que conduzirá, a breve prazo, ao afastamento desta área dos referenciais curriculares do 1º ciclo, por falta de uso.

É verdade: Já ouvi manifestações de desagrado das associações profissionais de Educação Física… só que sussurram entre dentes…; Já ouvi vozes discordantes oriundas de instituições de formação de professores de Educação Física… só que sabem a papel de música…

Atendendo a que o individualismo faz escola na escola e não é previsível que alguém se atreva a encetar uma luta particular contra este estado de coisas, pergunto se as estruturas associativas e as escolas formadoras de professores estão à espera que este governo caia de podre?

maio 01, 2007

Professor Hermínio Barreto

Hermínio Barreto é um dos nossos melhores. Quem teve o prazer de o ver em acção sabe como a pedagogia pode ser uma arte. Da minha parte não perco uma oportunidade para ver essa arte em acção quando sei o professor Hermínio vai estar, publicamente, em algum lado.
Há alguns anos que, a propósito do Basquetebol que é o seu desporto de sempre, este professor vem falando daquilo que é necessário para que os aprendizes no estádio mais inicial de aprender o jogo, o possam aprender, de uma forma acessível e adequada. De todos os ensinamentos, um, o da "dosagem da distância" consubstanciado na protecção que se deve dar ao jogador em situação de atacante com bola, parece-me ser simultâneamente o mais importante e o mais descurado na prática dos professores e dos treinadores de jovens principiantes. Quantas vezes vemos professores e treinadores a permitirem que os defesas espontaneamente inviabilizem toda a possibilidade de os atacantes com bola jogarem com o mínimo de intencionalidade. Isso parece-me ocorrer (generalizadamente e infelizmente) no ensino de todos os jogos de invasão. É algo que urge consciencializar e modificar.
A este respeito temos acesso a um texto de um nosso colega de blog, o Amândio, que é simultâneamente um reputado especialista no ensino dos desportos colectivos em geral e do Basquetebol em particular. Um excelente texto ("A Dosagem da Distância - deixe o possuidor da bola respirar para o jogo poder evoluir") este que damos aqui a conhecer a quem porventura não o conheça e que foi publicado no livro "O Basquetebol e a Pedagogia de Hermínio Barreto" da FCDEF-UP, editado pelos professores Fernando Tavares e Amândio Graça. Este texto está online no site do Electronic Sport Education Program que dá a conhecer investigações europeias sobre estas temáticas e apresenta um conjunto de produções audo-visuais muito interessantes para todos os professores de EF.
Estou em querer que não será esta a última vez que falámos neste nosso blog do professor Hermínio...

abril 26, 2007

EF: em francês ou inglês.

Ainda há minutos, em conversa com o Miguel Pinto, reflectia sobre o facto de se encontrar muito material informativo de boa qualidade em língua francesa sobre Educação Física. Já em língua inglesa não se encontra quase nada, é tudo pago.
Gostava de perguntar aos passantes aqui pelo blog qual é a língua estrangeira da sua preferência na obtenção de conteúdos técnicos.
Desde já, eu, como francófono, vou deixar aqui em vários posts algumas referências deste tipo de conteúdos.
Começo por vos indicar um site dum professor francês de EF num liceu profissional, que é uma verdadeira plataforma de conteúdos e de links. É o site do professor Bernard Lefort. Nele podem encontrar conteúdos das várias modalidades ensinadas; links para outros sites especializados em EF ou em modalidades desportivas; instrumentos e materiais de ensino; imagens; vídeos. Enfim um manancial de conteúdos de livre acesso.
Desfrutem e, por favor, depois de por lá passarem digam qual foi a vossa impressão.

abril 23, 2007

Natação como prática cultural

O desporto (e a Educação física) é essencialmente uma prática cultural carregada de história. É nesse enquadramento social e humano e em toda a riqueza que ele apresenta (sem esquecer as suas derivas) que ele deve ser lido.
Trago-vos aqui um link para um conteúdo delicioso sobre a evolução das práticas da natação e das concepções do seu ensino ao longo do tempo, muito enriquecido por imagens e vídeos históricos.
Espero que gostem tanto como eu.
"De l’art de nager à la Science de la Natation
Evolution des conceptions Biomécaniques, Techniques et Pédagogiques"

Para quem quiser aproveitar recursos técnicos actuais sobre Natação do mesmo autor, ver também outro link aqui.

abril 19, 2007

Em conversa com uma colega em busca de tema para a sua dissertação de mestrado, reflectimos acerca dos currículos de EF para o Secundário, tal como outras que tive com outros colegas, a reflexão ficou-se pelas modalidades a abordar, o número por ano lectivo e os critérios de escolha. A questão centrava-se essencialmente se os professores cumprem não com o que o programa determina e se será ou não adequado para os objectivos da disciplina.

A conversa fez-me passar novamente pelo calhamaço do programa e relê-lo, na esperança de encontrar falhas na minha interpretação e desta forma, melhorar o conhecimento, julgo aprofundado, que tenho do documento. Logicamente que voltei a pensá-lo e confesso que, embora partilhando da preocupação legal da colega, não me parece ser a questão de substância a levantar.

Julgo que não foi esgotada a reflexão acerca da importância da disciplina (não no sentido de dizer se é ou não importante, mas no sentido de clarificar onde é que ela pode ajudar o jovem no seu processo de desenvolvimento de competências pessoais e sociais). Este debate e consequente clarificação da disciplina levará à necessidade ou não (acredito piamente que sim, mas é só o meu ponto de vista) da reformulação dos objectivos e, por consequência, a reformulação do referido calhamaço programático.

Faço-vos notar que se a escola está a mudar é porque a sociedade assim a obriga, vai daí o desporto como fenómeno social também exige o mesmo, já que os seus objectivos, as suas funções, fruto das novas necessidades sociais (umas mais importantes que outras) vão se adaptado. Tendo a EF como seu “instrumento de trabalho” o desporto, parece-me lógico que olhe para si com olhos de mudança.

Finalizo colocando a ênfase no ponto de vista que defendo, ou seja, não sugiro uma reformulação de conteúdos (embora deva haver uma preocupação continuada de os actualizar, face às predilecções e às necessidades dos jovens estudantes), mas sim uma reformulação dos seus objectivos, partindo de um redimensionamento do desporto e das suas funcionalidades, enquanto instrumento de desenvolvimento psicossocial de grande valia.

abril 18, 2007

Está garantido…

(importei este texto do outrÒÓlhar, com uma ligeira adaptação)

Nada me move contra o ensino privado. É verdade que sou um defensor incondicional de uma escola pública de qualidade mas não tenho qualquer reserva (ideológica ou emocional) contra o ensino privado. Não me sinto inclinado, portanto, a adoptar um discurso maniqueísta de sentido contra-hegemónico, em que de um lado está o “bom”, o ensino público, o referencial ético, e do outro está o “mau”, o ensino privado, atreito à trapaça e ao ardil.

Mas, há coisas que dão que pensar, lá isso dão!…

Esta semana realizam-se os pré-requisitos para o acesso aos cursos em Educação Física e Desporto. Os alunos submetem-se a uma bateria de testes que avaliam a aptidão para a realização de actividade desportiva. Para quem não acompanhou a implementação da actual reforma do ensino secundário, convém dizer que foi abolida a disciplina de Desporto e que os alunos que desejam prosseguir estudos nesta área, contam apenas com as aulas de Educação Física para desenvolverem a aptidão funcional e física. Atendendo ao carácter generalista das aulas de Educação Física, a preparação dos alunos está condicionada à oferta de actividades desportivas não-escolares, custeadas pelos próprios, e à carolice de alguns professores de Educação Física que, fora de horas, “inventam” aulas extraordinárias gratuitas. Não ouso dizer que esta alteração (abrupta) no plano de estudos decorreu de uma vontade em estimular um “novo” mercado a partir das insuficiências da escola – o mercado da oferta desportiva. Creio que o problema é bem mais simples de explicar: foram apenas erros grosseiros de planeamento que fizeram avançar uma reforma curricular sem cuidar da articulação ensino secundário/ensino superior.

Voltando ao assunto, os alunos sentem-se, naturalmente, inseguros. É uma insegurança que decorre das circunstâncias em que os alunos se prepararam para estes pré-requisitos. Nas suas conversas revelavam muita apreensão, alguma revolta, uma atitude defensiva, e um (pré)juízo do que significa o ensino privado:
A instituição escolhida para a realização dos pré-requisitos era uma instituição privada, para os quais terão despendido cerca de 150€, três vezes mais do que pagariam numa instituição pública.
Perguntei-lhes porquê. Se as regras, as marcas, os testes, são comuns às instituições do ensino superior, por que carga de água é que decidiram pagar três vezes mais pelo mesmo.

- Está garantido, está garantido professor…
- Está garantido?...

Este episódio suscita várias questões (e limito-me a destacar apenas duas que estão directamente ligadas):
As representações dos alunos acerca do ensino privado parecem assentar em pressupostos económicos e em lógicas de prestação de serviço em que o cliente “pagador” admite apenas uma resposta do prestador: a satisfação das suas necessidades. Por esta perspectiva, os testes e os pré-requisitos serão meros formalismos que não devem ser dispensáveis, na medida em que legitimam a relação mercantil?
De que forma as instituições do ensino superior público defendem os interesses dos alunos que as procuram? Ou melhor, de que modo é garantido o princípio da equidade e da justiça no acesso ao ensino superior?
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