abril 26, 2007

EF: em francês ou inglês.

Ainda há minutos, em conversa com o Miguel Pinto, reflectia sobre o facto de se encontrar muito material informativo de boa qualidade em língua francesa sobre Educação Física. Já em língua inglesa não se encontra quase nada, é tudo pago.
Gostava de perguntar aos passantes aqui pelo blog qual é a língua estrangeira da sua preferência na obtenção de conteúdos técnicos.
Desde já, eu, como francófono, vou deixar aqui em vários posts algumas referências deste tipo de conteúdos.
Começo por vos indicar um site dum professor francês de EF num liceu profissional, que é uma verdadeira plataforma de conteúdos e de links. É o site do professor Bernard Lefort. Nele podem encontrar conteúdos das várias modalidades ensinadas; links para outros sites especializados em EF ou em modalidades desportivas; instrumentos e materiais de ensino; imagens; vídeos. Enfim um manancial de conteúdos de livre acesso.
Desfrutem e, por favor, depois de por lá passarem digam qual foi a vossa impressão.

abril 23, 2007

Natação como prática cultural

O desporto (e a Educação física) é essencialmente uma prática cultural carregada de história. É nesse enquadramento social e humano e em toda a riqueza que ele apresenta (sem esquecer as suas derivas) que ele deve ser lido.
Trago-vos aqui um link para um conteúdo delicioso sobre a evolução das práticas da natação e das concepções do seu ensino ao longo do tempo, muito enriquecido por imagens e vídeos históricos.
Espero que gostem tanto como eu.
"De l’art de nager à la Science de la Natation
Evolution des conceptions Biomécaniques, Techniques et Pédagogiques"

Para quem quiser aproveitar recursos técnicos actuais sobre Natação do mesmo autor, ver também outro link aqui.

abril 19, 2007

Em conversa com uma colega em busca de tema para a sua dissertação de mestrado, reflectimos acerca dos currículos de EF para o Secundário, tal como outras que tive com outros colegas, a reflexão ficou-se pelas modalidades a abordar, o número por ano lectivo e os critérios de escolha. A questão centrava-se essencialmente se os professores cumprem não com o que o programa determina e se será ou não adequado para os objectivos da disciplina.

A conversa fez-me passar novamente pelo calhamaço do programa e relê-lo, na esperança de encontrar falhas na minha interpretação e desta forma, melhorar o conhecimento, julgo aprofundado, que tenho do documento. Logicamente que voltei a pensá-lo e confesso que, embora partilhando da preocupação legal da colega, não me parece ser a questão de substância a levantar.

Julgo que não foi esgotada a reflexão acerca da importância da disciplina (não no sentido de dizer se é ou não importante, mas no sentido de clarificar onde é que ela pode ajudar o jovem no seu processo de desenvolvimento de competências pessoais e sociais). Este debate e consequente clarificação da disciplina levará à necessidade ou não (acredito piamente que sim, mas é só o meu ponto de vista) da reformulação dos objectivos e, por consequência, a reformulação do referido calhamaço programático.

Faço-vos notar que se a escola está a mudar é porque a sociedade assim a obriga, vai daí o desporto como fenómeno social também exige o mesmo, já que os seus objectivos, as suas funções, fruto das novas necessidades sociais (umas mais importantes que outras) vão se adaptado. Tendo a EF como seu “instrumento de trabalho” o desporto, parece-me lógico que olhe para si com olhos de mudança.

Finalizo colocando a ênfase no ponto de vista que defendo, ou seja, não sugiro uma reformulação de conteúdos (embora deva haver uma preocupação continuada de os actualizar, face às predilecções e às necessidades dos jovens estudantes), mas sim uma reformulação dos seus objectivos, partindo de um redimensionamento do desporto e das suas funcionalidades, enquanto instrumento de desenvolvimento psicossocial de grande valia.

abril 18, 2007

Está garantido…

(importei este texto do outrÒÓlhar, com uma ligeira adaptação)

Nada me move contra o ensino privado. É verdade que sou um defensor incondicional de uma escola pública de qualidade mas não tenho qualquer reserva (ideológica ou emocional) contra o ensino privado. Não me sinto inclinado, portanto, a adoptar um discurso maniqueísta de sentido contra-hegemónico, em que de um lado está o “bom”, o ensino público, o referencial ético, e do outro está o “mau”, o ensino privado, atreito à trapaça e ao ardil.

Mas, há coisas que dão que pensar, lá isso dão!…

Esta semana realizam-se os pré-requisitos para o acesso aos cursos em Educação Física e Desporto. Os alunos submetem-se a uma bateria de testes que avaliam a aptidão para a realização de actividade desportiva. Para quem não acompanhou a implementação da actual reforma do ensino secundário, convém dizer que foi abolida a disciplina de Desporto e que os alunos que desejam prosseguir estudos nesta área, contam apenas com as aulas de Educação Física para desenvolverem a aptidão funcional e física. Atendendo ao carácter generalista das aulas de Educação Física, a preparação dos alunos está condicionada à oferta de actividades desportivas não-escolares, custeadas pelos próprios, e à carolice de alguns professores de Educação Física que, fora de horas, “inventam” aulas extraordinárias gratuitas. Não ouso dizer que esta alteração (abrupta) no plano de estudos decorreu de uma vontade em estimular um “novo” mercado a partir das insuficiências da escola – o mercado da oferta desportiva. Creio que o problema é bem mais simples de explicar: foram apenas erros grosseiros de planeamento que fizeram avançar uma reforma curricular sem cuidar da articulação ensino secundário/ensino superior.

Voltando ao assunto, os alunos sentem-se, naturalmente, inseguros. É uma insegurança que decorre das circunstâncias em que os alunos se prepararam para estes pré-requisitos. Nas suas conversas revelavam muita apreensão, alguma revolta, uma atitude defensiva, e um (pré)juízo do que significa o ensino privado:
A instituição escolhida para a realização dos pré-requisitos era uma instituição privada, para os quais terão despendido cerca de 150€, três vezes mais do que pagariam numa instituição pública.
Perguntei-lhes porquê. Se as regras, as marcas, os testes, são comuns às instituições do ensino superior, por que carga de água é que decidiram pagar três vezes mais pelo mesmo.

- Está garantido, está garantido professor…
- Está garantido?...

Este episódio suscita várias questões (e limito-me a destacar apenas duas que estão directamente ligadas):
As representações dos alunos acerca do ensino privado parecem assentar em pressupostos económicos e em lógicas de prestação de serviço em que o cliente “pagador” admite apenas uma resposta do prestador: a satisfação das suas necessidades. Por esta perspectiva, os testes e os pré-requisitos serão meros formalismos que não devem ser dispensáveis, na medida em que legitimam a relação mercantil?
De que forma as instituições do ensino superior público defendem os interesses dos alunos que as procuram? Ou melhor, de que modo é garantido o princípio da equidade e da justiça no acesso ao ensino superior?
...

abril 15, 2007

O ensino do Voleibol na escola e não só...

"Qualquer que seja o desporto colectivo, o algoritmo coloca o portador da bola no primeiro papel:
-se ele pode atirar directamente deve atirar;
-se ele não pode atirar directamente, deve progredir para atirar;
-se ele não pode progredir então passa a bola a um colega.
O outro, o colega, não entra em jogo a não ser quando o portador esgotou as soluções para marcar sozinho. Esta lógica é, parece-nos, esquecida no voleibol escolar..."

In Evolução da correlação de forças entre o ataque e a defesa em voleibol escolar e proposições de conteúdos. De Samuel Lepuissant.

O excerto que citei em cima (tradução do francês da minha responsabilidade) é um dos exemplos, raros ainda na prática, de uma forma diferente de ver e interpretar o ensino dos desportos colectivos. Em vez de uma análise e uma prescrição a priori de conteúdos de ensino, o autor procede dialecticamente (penso ser o termo mais preciso). Armado com um conhecimento aprofundado(incluíndo da evoluição histórica) do jogo, e procedendo a uma análise concreta e insubstituível do que acontece no jogo jogado pelos alunos (não economizada pela idealização de uma vontade), o autor dá ideia de caminhos a seguir e dos conteúdos a aprender.
O que é válido para o Voleibol escolar, que é neste texto objecto de uma crítica incisiva, é, a meu ver extensível a muitas das matérias da Educação Física Escolar, a começar pelos restantes desportos colectivos.
Espero que disfrutem como eu tenho disfrutado deste texto (e que o vosso francês o permita ler).

abril 04, 2007

Reformas da educação, paradoxos e mistificações

A actual ministra da educação ganhou fama de corajosa reformista junto da comunicação social dita séria, em especial dos fazedores de opinião de pendor neoconservador e neoliberal, para quem tudo quanto mereça a oposição dos sindicatos dos professores só pode ser benéfico para a educação. Aliás o comentário político em Portugal cultiva a superficialidade estética, olhando mais para o estilo da intervenção e para as reacções que provoca do que para a substância, para os fundamentos e finalidades, para os quês e os porquês.
Não há como negar a necessidade de reformas. A escola tem que se organizar melhor para funcionar melhor, para enfrentar as dificuldades do insucesso educativo, para se adaptar e responder às transformações da sociedade, com os seus novos problemas e desafios.
É fácil dizer que as mudanças custam; as pessoas, os professores em especial, são resistentes às mudanças; as corporações colocam os seus interesses particulares acima do bem comum, dos interesses superiores da sociedade; as organizações, como as escolas, padecem de uma inércia endémica e duma capacidade de arruinar, subverter, ou dissipar todo o intento reformista. Apesar de tudo isso, se nos fosse dado ver em filme o quotidiano das crianças, dos jovens e das escolas de há 100 anos, de há 50 anos, de há 30, ou de há 10 anos atrás a funcionar nos diferentes espaços, salas de aula, biblioteca, ginásio, cantina, recreios, etc, por certo nos aperceberíamos de que muita coisa mudou, e de que em muitos aspectos mudou radicalmente.
Porém, nos nossos dias, mudar transformou-se magicamente num valor próprio, independentemente do sentido da mudança, dos seus pressupostos, fundamentos e finalidades. As propostas de mudança são proclamadas em nome da qualidade e qualificação, da eficiência e sucesso educativo, do profissionalismo, profissionalização e profissionalidade, da responsabilidade, do accountability, da autonomia, iniciativa, criatividade, do trabalho em equipa e de outros meritórios desígnios.
O primeiro paradoxo é que os conservadores por tradição avessos à mudança, defensores da tradição, apresentam-se hoje na linha da frente da mudança, batendo-se por uma nova ordem social, que passa em grande medida pela desacreditação da escola pública em favor de educação privada, subvencionada pelo estado, e de preferência tutelada por instituições ligadas à igreja. A ministra tem dado uma grande ajuda através de declarações de apoucamento das escolas e dos professores.
O segundo paradoxo diz respeito às declarações de amor e juras à prioridade da educação, à aposta na qualidade ao mesmo tempo que se reduz o orçamento da educação e das escolas, muito em especial no que diz respeito à remuneração dos professores, ao congelamento de carreiras, à precarização da contratação docente.
O terceiro paradoxo tem a ver com a proclamação da profissionalidade docente em contraste absoluto com a diminuição do espaço de decisão autónoma e de iniciativa dos professores, com a descaracterização da função docente, nomeadamente com aulas de substituição destituídas de propósito pedagógico, com a excessiva carga burocrática que se impõe aos professores, reuniões, planos, relatórios que servem mais as exigências de uma burocracia formal do que necessidades educativas. Há hoje zelosos conselhos executivos que inventam tarefas para que os professores nunca estejam desocupados quando não têm aulas; o trabalho de equipa é burocratizado, os projectos interdisciplinares são sujeitos a horários prefixados; hoje há sinais evidentes de um processo de desprofissionalização que começou com a subcontratação de mão-de obra barata para leccionar inglês e educação física no primeiro ciclo e com a introdução dos contratos individuais de trabalho.
Para além destes, outros paradoxos e mistificações existem, a maior das quais é aquela que em nome da racionalidade económica, da gestão eficiente dos recursos, quer fazer das pessoas peças programáveis, reprogramáveis e descartáveis, para usar e deitar fora, ao serviço dos superiores interesses da sacrossanta economia e da competitividade global.

Amândio Graça

abril 01, 2007

Pedagogia de ponta?...



"A única forma de influenciar o comportamento dos outros é através do exemplo."
Albert Schweitzer, prémio Nobel da Paz de 1952, citado no livro "O Desporto e as Estruturas Sociais" de José Esteves, professor de EF que é uma referência para os seus pares.

março 20, 2007

Síntese da JORNADA DE REFLEXÃO PARA PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA

"No dia 9 de Março de 2007, entre as 15 e as 17 horas, realizou-se no Auditório da Faculdade de Desporto, uma Jornada de Reflexão para Professores de Educação Física, promovida pela Associação de Antigos Alunos (AAA) da FADEUP e com o apoio desta.
Estiveram presentes cerca de 50 professores, tendo sido debatidos os seguintes assuntos:
Ponto prévio
Numa nota introdutória de boas vindas, o Presidente do Conselho Directivo da FADEUP salientou a importância de nos unirmos numa altura tão particular como esta que estamos a viver, porquanto constitui um desafio para todos “encontrarmos uma agenda comum que nos alimente…”
Seguidamente o Presidente da Direcção da AAA, enquadrou a organização desta Jornada num conjunto de iniciativas que a Associação pretende levar a efeito até ao fim do presente ano lectivo, altura em que haverá eleições para os novos corpos gerentes. Assim, esta Jornada surgiu da necessidade sentida pelos professores de Educação Física em debaterem um conjunto de questões relacionadas com diversos temas, nomeadamente, o processo de Bolonha, o Estatuto da Carreira Docente e a Avaliação da Educação Física no Ensino Secundário.

Tema 1 - Avaliação da disciplina de Educação Física no Ensino Secundário: Depois do Decreto-Lei nº 74/2004 não prever nenhum regime de excepção para a avaliação da disciplina de Educação Física, que passaria a ser contabilizada no cálculo da média para o ingresso ao ensino superior, têm-se levantado várias vozes tentando contrariar esta decisão. Para além de várias Associações de Pais, que propõem pura e simplesmente abolir a classificação da disciplina de Educação Física, surgiu uma recomendação para que se considerasse a possibilidade dos alunos optarem, ou não, por contabilizar a disciplina de Educação Física na sua média de ingresso ao ensino superior. Depois de ouvidas várias opiniões, que unanimemente recusaram aceitar este movimento pró desvalorização da disciplina de Educação Física, ficou decidido que a AAA iria tomar uma posição firme em defesa da manutenção da classificação da disciplina de Educação Física para efeitos do ingresso no Ensino Superior, tal como prevê a legislação em vigor. A Direcção da AAA assumiu a responsabilidade de redigir um texto que depois poderá também ser assumido pela FADEUP e que terá a respectiva divulgação.

Tema 2 – O ensino das actividades físicas e desportivas no 1º Ciclo do Ensino Básico: Da reflexão em torno da disciplina de Educação Física no Ensino Secundário passámos para a situação que se vive no 1º ciclo do Ensino Básico. Não sendo necessário referir a importância que tem nestas idades uma correcta e regular prática desportiva, os colegas que têm acompanhado neste ano lectivo as actividades de enriquecimento curricular denunciaram um conjunto de situações que urge não só aprofundar como tomar medidas firmes em defesa da Educação Física e do Desporto neste ciclo do ensino. Assim, as actividades de Expressão Motora, que deviam ser abordadas de forma sistemática conforme consta nos programas curriculares oficiais, passaram a ser opcionais. A propósito deste tema, várias perguntas ficaram no ar: Como é feito o recrutamento dos docentes? Qual o vínculo dos docentes contratados? Que vencimento e protecção têm os docentes? Quem controla e como faz? Quem efectivamente decide o plano das actividades a leccionar? Para quando uma efectiva aposta no Desporto no 1º ciclo? Estando a ser feita a avaliação da forma como estão a decorrer as actividades de enriquecimento curricular, iremos acompanhar este processo de maneira atenta, sendo esta uma das temáticas que mais atenção deve despertar.

Tema 3 – O processo de Bolonha… que implicações? Este é um assunto que levanta muitas dúvidas, por ser ainda recente, por não estarem ainda definidos todos os seus contornos e porque serão muitas as mudanças previstas. Nesta reunião foram explicados os fundamentos e objectivos do processo de Bolonha, tendo sido salientado que os responsáveis pela FADEUP, que têm acompanhado este processo, estão atentos e sensibilizados para, depois de estar definido qual o modelo seguido pela Faculdade de Desporto, encontrarem formas justas que possibilitem a integração e as devidas equiparações de todos no novo formato de formação e certificação profissional. Assim, sendo ainda prematuro avançar com certezas, este será certamente um assunto que merecerá num futuro próximo a maior atenção.

Outros temas – Como é natural, nesta reunião não se esgotaram todos os temas, nem houve tempo para aprofundar todas as dúvidas. Deste modo, foram ainda afloradas outras questões que oportunamente merecerão a maior atenção, nomeadamente: o concurso para professores titulares; as saídas profissionais para os recém-licenciados; a situação dos professores que estão requisitados nas Federações e que correm o risco de ser altamente prejudicados com o novo ECD; a avaliação dos Professores de Educação Física, quem a pode fazer e com que critérios; os critérios de avaliação e a forma como os grupos de Educação Física nas diferentes Escolas se têm organizado para fazer face à nova realidade; a formação contínua e a ligação da Faculdade de Desporto aos seus antigos alunos.

Foi uma reunião interessante que mostrou a todos os que estiveram presentes o quanto precisamos de juntar forças e de organizar momentos como este para aprofundar questões demasiado importantes para o presente e futuro da nossa profissão. Para evitar que esta continue a ser tão mal tratada e para pôr termo a tantos silêncios que acabam por ser cúmplices…
Ficou, assim, a vontade de continuar, talvez noutros dias da semana, ou do fim-de-semana, com outro horário, tendo sido ainda lançado um desafio a todos – continuar a partilha de ideias e dúvidas, promover a disseminação desta vontade de unir, estando atentos às mudanças, renovando a vontade de voltar à casa que nos formou e que pode/tem de ser, cada vez mais, um porto de abrigo onde nos podemos (re)encontrar.
Porto, 9 de Março de 2007"

março 17, 2007

março 06, 2007

Voltando ao artigo de André Escórcio

O texto de Escórcio leva-nos para uma reflexão que urge fazer e que de certa maneira venho defendendo. Nem vou ligar muito à questão das provas aferidas, ao contrário dele é assunto que não me motiva pelo absurdo da ideia. Acho que a Educação Física deve ser aferida mas não pelo conteúdo da disciplina, mas sim pelas mudanças comportamentais que pode e deve ser capaz de produzir, materializadas em trabalho de cariz prático (em minha opinião este é um desafio que se devia agarrar).

Mas outra reflexão colocada por Escórcio e com a qual discordo frontalmente é a dialéctica professor generalista/especialista. Confesso que acredito no valor da EF como mola impulsionadora de novos hábitos que conduzam a uma melhoria nas competências pessoais e sociais do adolescente em direcção à adultícia que se quer participativa, activa, solidária e saudável. O desporto dentro da EF pode e deve promover essas competências, caso contrário nem o desporto serve para nada, nem a EF faz o seu papel. Vai daí acredito no professor generalista no que se refere aos conteúdos desportivos a abordar e especialista na procura de estratégias para que o desporto possa e deva fazer o seu papel em direcção de desenvolver competências pessoais e sociais.

O outro desporto, aquele que está associado à vertente espectáculo e/ou profissional, pode e deve ser explorado na escola num contexto da formação específica, ou seja, ou se entrega à iniciativa privada os que querem evoluir para se tornarem artistas profissionais, ou se dá, legitimamente, a possibilidade de formação específica para quem, quiser continuar os seus estudos na área do desporto. Por outras palavras, quer ser atleta profissional vai para o clube, quer seguir estudos na área desportiva, vai para as opções ou tecnológicos, ou o que quiserem chamar de desporto, mas que não se confundam esses objectivos com os da EF.

Voltando ao texto de Escórcio duas outras questões merecem reflexão: a fraude na avaliação e a guerra entre lobbies.

De facto a avaliação corre o risco de ser uma fraude derivado ao fundamentalismo dos lobbies o da EF e o da Educação Desportiva. Há muito tempo que suspeito ser esta uma guerra tipo Norte/Sul ou Lisboa/Porto. O facto de ser ilhéu vejo que estas guerras só existem porque ambos querem ter a hegemonia, não porque querem colaborar para criar um país mais justo e homogéneo. Vai daí apelar que se discuta a EF e o Desporto sobre uma perspectiva humanista sem cair no exagero do fundamentalismo pedagógico que o há, nem nos deixarmos enredar pelo bichinho neoliberal que, me desculpe o Amigo Escórcio acho estar a influenciá-lo.

março 04, 2007

A CONTABILIZAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA MÉDIA DO ENSINO SECUNDÁRIO PARA EFEITO DE INGRESSO NO ENSINO SUPERIOR. (cont II)

RECOMENDAÇÕES

A opção por qualquer dos cenários apresentados, na primeira parte deste documento, requer duas condições:
• O esclarecimento do enquadramento legal relativo à disciplina de Educação Física quanto: (1) à excepção relativa à atribuição de carga horária semanal que a disciplina constitui no contexto das demais disciplinas; (2) à vigência do Despacho n.º 30/SEED/95; e (3) à instância – Ministério da Educação ou Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - à qual compete a decisão quanto à consideração da classificação no cálculo da média para efeitos de acesso ao ensino superior.
• O levantamento das condições oferecidas pelo sistema para a sua leccionação e, em particular, da oferta e do desenvolvimento efectivos da disciplina de Educação Física, nomeadamente nos cursos profissionais e de educação e formação (designadamente no âmbito do ensino particular e cooperativo).
Sublinhe-se que a importância do ingresso no Ensino Superior nos trajectos biográficos, nos projectos de vida de alunos e respectivas famílias, bem como os investimentos simbólicos e materiais a eles inerentes, tornam esta questão particularmente sensível. A sua resposta, qualquer que ela seja, deverá ser assim clara e estar escorada numa fundamentação legal rigorosa.
Cumpre assinalar que não foram encontrados argumentos consistentes que permitam atribuir à disciplina de Educação Física um estatuto diferente do das outras disciplinas da componente de formação geral. Assumimos, porém, não existirem condições no debate público que viabilizem a defesa firme do cenário B. Assim, afiguram-se dois cenários que, não sendo os ideais ao nível dos princípios e da coerência do currículo, permitem responder a diferentes expectativas entretanto criadas pelos alunos e respectivas famílias: o cenário C e o cenário D. Do ponto de vista da coerência curricular o cenário C seria o mais defensável, no entanto, também aqui não existem condições para que os diversos intervenientes no processo, nomeadamente os ligados às outras disciplinas da componente de formação geral, partilhem desta perspectiva.
Face ao exposto, e apesar de se saber correr o risco da atribuição à disciplina de Educação Física de um estatuto menor, o GAAIRES recomenda o Cenário D, que permite pelo menos não defraudar as expectativas dos alunos que legitimamente investem ou podem vir a investir na disciplina.

A CONTABILIZAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA MÉDIA DO ENSINO SECUNDÁRIO PARA EFEITO DE INGRESSO NO ENSINO SUPERIOR (cont. I)

Ponderados os constrangimentos abaixo enunciados é possível configurar os seguintes cenários.


Cenário A

A classificação da disciplina não é contabilizada no cálculo da média do ensino secundário para efeitos de acesso ao ensino superior.

Argumentos favoráveis

Diversidade na oferta efectiva da disciplina nas diferentes vias do ensino secundário;

Desigualdades nas condições das instalações, equipamentos e materiais dos estabelecimentos de ensino que oferecem a disciplina;

Pressão por parte dos alunos e famílias;

Diversidade de opções por parte dos professores, decorrente das modalidades propostas pelo programa em alternativa, por um lado, e condicionadas pelos recursos das escolas, por outro.

Argumentos contrários

Atribuição de um estatuto de excepção à disciplina de Educação Física no contexto das demais disciplinas e áreas curriculares;

Promoção de atitudes de pouco investimento na disciplina por parte dos alunos;

Legitimação do estado de coisas no que diz respeito à desigualdade das condições físicas e materiais dos diferentes estabelecimentos de ensino;

Prejuízo dos alunos que investem na disciplina e obtêm classificações elevadas.


Cenário B

A classificação da disciplina é contabilizada na média do ensino secundário para efeitos de acesso ao ensino superior.

Argumentos favoráveis

Igualdade de estatuto entre as disciplinas do currículo, designadamente as que integram a componente de formação geral ou equivalente em todas as vias do ensino secundário;

Importância da disciplina para o desenvolvimento dos alunos, no desenvolvimento de aptidões, atitudes e valores, proporcionadas pela exploração das suas capacidades mediante actividade física adequada, intensa, saudável, gratificante e culturalmente significante.

Argumentos contrários

Diversidade de características biológicas/genéticas dos alunos que se reflecte no seu desempenho;

Desigualdades nas condições das instalações, equipamentos e materiais dos estabelecimentos de ensino que oferecem a disciplina;

Diversidade na oferta efectiva da disciplina nas diferentes vias do ensino secundário;

Pressão por parte dos alunos e famílias;

Diversidade de opções por parte dos professores, decorrente das modalidades propostas pelo programa em alternativa, por um lado, e condicionadas pelos recursos das escolas, por outro;

Cenário C

O aluno poderá excluir uma das disciplinas do seu plano curricular, cuja classificação lhe seja menos favorável (podendo esta ser ou não a da disciplina de Educação Física), com excepção das disciplinas que integram a componente de formação específica.

Argumentos favoráveis

Maior equidade no acesso ao ensino superior, uma vez que ao aluno seria facultada a possibilidade de prescindir da classificação que mais o prejudicasse;

Maior equidade na consideração das disciplinas e do seu valor relativo.

Argumentos contrários

Dificuldade de aceitação, por parte de determinados sectores, da possibilidade de não serem consideradas as classificações de disciplinas como Português ou Filosofia, no cálculo da média para efeitos de acesso ao ensino superior;

Facilitação de atitudes de desinvestimento, por parte dos alunos, em disciplinas definidas à partida.


Cenário D

O aluno pode decidir se pretende contabilizar a classificação de Educação Física no cálculo da média para efeito de acesso ao ensino superior.

Argumentos favoráveis

A decisão cabe ao aluno, permitindo-lhe optar pela situação que mais o beneficie;

Promoção da valorização da disciplina por parte dos alunos que nela legitimamente investem ou poderão vir a investir.

Argumentos contrários

Iniquidade no acesso entre os alunos cujo plano de estudo inclui a disciplina de Educação Física e os alunos cujo plano de estudo efectivo não inclui a disciplina de Educação Física, por exemplo, alunos das escolas profissionais privadas em que esta não seja oferecida.

A CONTABILIZAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NA MÉDIA DO ENSINO SECUNDÁRIO PARA EFEITO DE INGRESSO NO ENSINO SUPERIOR.

Enquadramento do problema - (http://www.gaaires.min-edu.pt/ficheiros/relatorio/recomendacoes.pdf)

O Decreto-Lei nº74/2004 não prevê, no seu texto, qualquer estatuto excepcional da disciplina de Educação Física no cálculo da média do ensino secundário. Todavia, subsistem obstáculos à efectiva implementação deste princípio, geradas por:

a) Ambiguidade legal decorrente da não revogação explícita do Despacho n.º 30/SEED/9516. Este documento determinava que “transitoriamente, e enquanto o sistema educativo não garantir a todos os alunos do ensino secundário a frequência da disciplina de Educação Física, a classificação final obtida nessa disciplina não é considerada no cálculo da classificação final do ensino secundário para efeitos de candidatura ao ensino superior”. Como se expõe adiante, subsistem dúvidas sobre esta garantia de frequência, em particular no Ensino Profissional e no Ensino Recorrente.

b) Indefinição quanto à instância à qual compete a decisão sobre a consideração da classificação no cálculo da média para efeitos de acesso ao ensino superior17 Ministério da Educação ou Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

c) Possível inconsistência na legislação em vigor. Apesar de o texto do Decreto-Lei n.º 74/2004, de 26 de Março não prever nenhum regime de excepção para a disciplina de Educação Física para efeitos da sua avaliação, os planos de estudos nele constantes prevêem explicitamente a possibilidade de cargas horárias diferenciadas “no caso de não ser possível a escola assegurar as condições físicas, humanas e organizacionais para a leccionação da disciplina com a carga horária definida”18. Esta possibilidade não é considerada para qualquer das outras disciplinas que integram os planos de estudo e abre espaço para a formulação de dúvidas quanto à não existência de condições reais para o regular desenvolvimento da disciplina;

d) Possível desigualdade no acesso ao ensino superior entre os alunos dos cursos científico-humanísticos e dos cursos tecnológicos, por um lado, e os alunos dos cursos profissionais ou do ensino recorrente, por outro. A oferta desta disciplina nos cursos profissionais é uma novidade introduzida pelo Decreto-Lei n.º 74/2004. Não se procedeu à avaliação, subsistindo dúvidas quanto às condições nomeadamente dos alunos que frequentam escolas privadas, que não oferecem a disciplina por falta de condições físicas e materiais.

e) Prática instituída de não contabilização da classificação desta disciplina para efeito de ingresso no Ensino Superior. Este facto não justifica por si só qualquer decisão. No entanto, é necessário sublinhar que o ingresso no ensino superior constitui um momento chave nos trajectos biográficos e projectos de vida de alunos e famílias, sendo por isso objecto de um investimento simbólico e material considerável por parte destes. Assim, torna-se imperativo o estabelecimento de uma norma clara e legalmente bem fundamentada quanto a este assunto.


(continua...)

Recomendação do GAAIRES

Retirado duma notícia:
"Sobre o peso que a disciplina de Educação Física (EF) deve ter no cálculo da média de acesso ao Ensino Superior, o grupo deixa uma proposta imprevista que seja o estudante a escolher. "O aluno pode decidir se pretende contabilizar a classificação de EF", diz o relatório dos peritos. Dos cenários possíveis, o GAAIRES rejeitou a exclusão da disciplina da fórmula, por não haver razões "consistentes" para que tenha "um estatuto diferente do das outras disciplinas"; a obrigatoriedade, porque a opinião pública é adversa à solução; e a hipótese da opção de "excluir uma disciplina cuja classificação lhe seja menos favorável"."

fevereiro 28, 2007

Curso Tecnológico de Desporto. Que Futuro?

Os cursos tecnológicos foram lançados pelo ME em 2004. Somente o Curso Tecnológico de Desporto irá continuar para além de 2007 porque, segundo dizem, é o único que, pelo seu sucesso, merece continuar. Todos os outros serão substituídos por cursos profissionais. Contudo, são muitos os Professores de Educação Física que não acreditam neste projecto.
Embora com dúvidas, aceitei este desafio porque, de alguma forma, achei que poderia ser interessante e sobretudo bastante diferente da, até então, Formação Técnica - Desporto.
Ocorreram-me, desde o início, bastantes ideias sobre o futuro profissional destes alunos que, sendo bem aceites pelos mais incrédulos colegas de profissão, foram apelidadas de utópicas no que concerne ao verdadeiro mercado de trabalho. Tenho consciência de que sou sonhadora mas, também sei que é o sonho que me motiva porque me inspira, me move e me alimenta a alma. Parafraseando Alberto Alberoni, “façam-nos sonhar. A Humanidade sempre viveu de sonhos”. Ou se quisermos, podemos recordar o Físico/Poeta Rómulo de Carvalho (António Gedeão) “O sonho comanda a vida e sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança”…..
Pensei que seria desejável que os funcionários das nossas instalações desportivas pudessem ter competências e conhecimentos, podendo dar outro contributo aos professores e treinadores. Gostaria de encontrar dirigentes e outros agentes desportivos com outra visão do fenómeno desportivo e outra cultura desportiva. Imaginei estes alunos, futuros técnicos de dinamização desportiva, a incentivar as nossas crianças para a prática de actividade física, fazendo a animação dos recreios das escolas do 1º ciclo. Será isto utopia? Com todo o respeito, os argumentos daqueles que consideram o Curso Tecnológico de Desporto uma falácia não me convencem, embora partilhe algumas das dúvidas e das incertezas.

Clementina Campelo

fevereiro 19, 2007

Partir a loiça ou pedra?

Um dos escritos que li nos últimos tempos que mais "tentou" abanar alguns fundamentos da actual Educação Física foi o de André Escórcio, no Jornal "A Página". Sob o título, "Provas aferidas em Ef. O ridículo de uma proposta" o autor apresentou um conjunto de críticas ácidas aos programas de EF, às práticas da disciplina e aos actores institucionais de primeiro plano.
Embora não partilhe de grande parte das opiniões do colega andré Escórcio, principalmente no que concerne à terapêutica por ele apresentada, acho que ele toca em questões importantes que precisam ser repensadas na teoria e prática da Educação Física.
Proponho-vos a leitura do artigo e um posterior debate a partir dele. que acham?

fevereiro 13, 2007

Educação Física – Recursos Educativos na Net

Olá a todos.
O post do Henrique levou-me a lançar-vos um desafio associado a um pedido de colaboração.
Na minha escola está a ser dinamizado um espaço virtual - plataforma moodle, no qual foi criada, entre outras, a “disciplina” da Educação Física.
Nesse espaço pretende-se disponibilizar, para toda a comunidade educativa, informação útil bem como o acesso a diferentes recursos e actividades educativas.
O meu pedido de colaboração vai no sentido de vos solicitar que deixem aqui ficar o registo de sites, preferencialmente em língua portuguesa, com recursos e actividades disponibilizadas na Net no âmbito da Educação Física: WebQuests, Caça ao Tesouro, Testes “Hot Potatoes”, recursos multimédia on-line, ambientes virtuais, livros virtuais…
A ideia é que cada um de nós partilhe com os outros aquilo que conhece (ou que entretanto descobre) para que todos tenhamos acesso a esses recursos.
Alinham?

Alguns exemplos:
Artes Marciais no Japão - Uma Aventura na Web
Jogos Olímpicos
Voleibol - Caça ao Tesouro
Voleibol - Palavras cruzadas
Referências didácticas na WEB - Livro Virtual do Centro de Competências Entre Mar e Serra.

fevereiro 11, 2007

Lecturas: EFDeportes

O site online Lecturas Educación Física e Deporte, iniciado e dinamizado, faz anos, pelo professor de EF argentino Tulio Guterman é um marco na EF internacional. Com artigos publicados em língua hispânica e também portuguesa, constitui já um acervo imenso, rico e variado para todos aqueles que se interessam pela EF e o Desporto nos seus vários aspectos. É, em suma, um site incontornável para todos os profissionais destes sectores.
Recentemente lançaram também a publicação de videos online. Hoje venho recomendar um destes: "Qué es la Educación Física? Una mirada desde la história" da professora argentina Angela Eisenstein. Para quem, eventualmente, não conheça este site, penso ser esta uma entrada muito interessante para começar a explorá-lo.
Por último queria salientar uma outra faceta deste site, a realçar nestes tempos de consumismo e de comercialismo: este é um projecto onde a difusão "desinteressada" do conhecimento assume uma dimensão particularmente gratificante.

fevereiro 06, 2007

debatendo...

Culpando a necessidade de argumentar o estudo que iniciei e, quiçá, amplia-lo a outras partes e escolas da região, fui desafiado a justificá-lo perante determinadas entidades. Tinha dois caminhos (pelo menos) possíveis: a) vestia o fato de um qualquer vendedor e tentava cativa-los a apoiarem o projecto; b) seria honesto comigo mesmo e explicava-lhes as minhas crenças acerca do desporto em geral e por inerência da Educação Física. Acredito no último caminho e vou tentar, ainda que resumidamente, colocá-lo, (a crença principal) aqui a debate que espero possa dar alguns frutos.

O ponto de partida é simples: Para que serve o desporto? Porque é que ele deve ser apoiado pelo Estado?

O valor intrínseco do desporto é relativo (ponto final). Só o considero importante porque mais do que tratar do corpo, trata do Homem e da Mulher e do seu desenvolvimento integral.

O desporto espectáculo existe é importante mas deve ser tratado pela iniciativa privada. Caros amigos, não fui eu que inventei o mercado livre….

A importância do apoio estatal do desporto em geral e da EF em particular passa pela crença da sua utilidade para o Homem e para a Mulher no que concerne às várias vertentes, sejam elas no sentido do incremento de estilos de vida saudáveis, no sentido antropológico e estético do corpo (muito em voga no Brasil), no sentido de ser uma ferramenta útil para desenvolver competências pessoais e sociais no indivíduo, ou ainda qualquer outro sentido que acrescente uma mais valia ao desenvolvimento humano. Se retirarmos todos esses sentidos provavelmente não resta mais nada ao desporto – a não ser que se olhe para ele por uma perspectiva “socialista-soviética” com o objectivo de nacionalizar a indústria do desporto espectáculo.

Não sei se corro o riso de haver quem me interprete como uma tentativa de esvaziar o desporto e a EF da sua importância, pelo contrário sinto e encontro apoios na literatura que vão nesse sentido. Resta-me vos dizer que é com base nesta crença que vou defender a utilidade do meu trabalho, é com base nesta crença que quero ser mais e melhor professor de Educação Física. É com base nesta crença que, como pai, tento incentivar a prática desportiva nos meus filhos.

fevereiro 05, 2007

"Apartletismo"

"Nas últimas décadas, a elite mundial descobriu os benefícios que as longas caminhadas podem trazer para a saúde. A identidade de riqueza com o sedentarismo diário foi substituída pela cultura do cooper, do jogging, das maratonas que empolgam os ricos jovens ou de meia-idade protegida pelas técnicas médicas. Ao mesmo tempo, o tamanho das megalópoles e a crise de modernidade forçaram milhões de pobres a optar pelas caminhadas como a única forma de se deslocarem dentro das cidades, uma vez que não dispõem de recursos para o pagamento do transporte colectivo. A apartação faz com que, no século XXI, em muitas cidades, na mesma hora, caminhem ricos na sua ginástica diária e pobres que se dirigem ao trabalho. Fazem o mesmo gesto, no mesmo momento, mas um sistema social apartado separa uns de outros, num apartletismo. O sonho de que a modernidade seria o fim do deslocamento a pé para todos foi substituída pela prática do desporto matutino pelos incluidos e pela marcha forçada de quilómetros pelos excluídos."
Apartação é uma espécie de Apartheid social.
In "Admirável Mundo Actual. Dicionário pessoal dos horrores e das esperanças do mundo globalizado" de Cristovam Buarque. Edições Terramar.