março 10, 2008

Ainda a propósito da municipalização da contratação docente

A municipalização da contratação docente, em nome dos ideais de descentralização, gestão de proximidade, conhecimento local, esconde, temo eu, uma agenda de fragmentação da classe docente e desprofissionalização dos professores.
A meu ver, as câmaras municipais não têm dimensão suficiente para se constituírem como tutela administrativa dos professores e das escolas. Além disso, num tempo de escassez de vaga e de desemprego de professores, a passagem das contratações para as câmaras pode ser um pretexto para pôr em causa a contratação colectiva e introduzir elementos de precarização do vínculo através de contratos individuais, tal como se verifica com o ensino do inglês e das outras actividades de complemento curricular no primeiro ciclo.
A intenção de passar as aulas de educação física e das áreas de expressão para a parte da tarde parece-me uma clara segregação do currículo e a menorização das áreas de expressão, que passarão, se isto for para diante, a ser vistas como actividades complementares, actividades de extensão, eventualmente facultativas, se os pais assim o quiserem. Todo o esforço que tem sido feito de constituir estas áreas curriculares como áreas de ensino e aprendizagem como as outras sofrerá com isto um rude golpe. Pestalozzi e Dewey devem estar a dar voltas na campa com tamanha tacanhez intelectualista.
Note-se que a concentração de horários da educação física (a manter-se o carácter obrigatório da disciplina) ditarão necessariamente um agravamento das condições de trabalho dos professores - até porque obrigará a um elevado aumento do número de alunos por professor com aglutinação de turmas.
O futuro não se me apresenta nada risonho, ou serei eu que estou a ficar demasiado azedo e pessimista?

Amândio Graça

5 comentários:

henrique santos disse...

É apenas realismo de análise. Acordo absoluto. Este é um bom texto a fazer chegar às nossas associações de classe de educação física.

Miguel Pinto disse...

Concordo com a análise e receio que a sugestão do Henrique não encontre eco. Onde estão as associações de classe?

Educação PARA e PELO Movimento disse...

Concordo com o autor do post, concordo com ambos os comentários e acrescento,..a educação fisica é entendida como uma aula de ginástica, menosprezada pelos politicos, desconsiderada pelos pais e desrespeitada por muitos da própria classe! À muito que o sistema educativo perdeu a noção do contexto onde se insere,..o paradigma da sociedade à muito que mudou mas o ensino continua igual, ou seja, tudo o que a caracteriza como tal é que continua igual, o que muda são as "reformas" dos governos. Se de facto, passar-se à municipalização da contratação docente,..pobre ensino, nada será como antes!

Susana Marques disse...

Concordo com todos... infelizmente temos razão para estarmos preocupados. E confusos também! Então e as recomendações da UE? E a política de Educação para a Saúde? E ainda os discursos da Ministra e restantes palestrantes da Educação na Casa da Música acerca dos Incentivos ao Ensino Artístico?
Anda uma atmosfera demasiado esquisofrénica, na educação!
Que pena!

OLED disse...

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