dezembro 17, 2006

Modelos de planeamento em Educação Física.

Os nossos programas apontam para um modelo de planeamento por etapas, com um tratamento integrado dos vários desportos que constam dos programas.
Eu, que sou do tempo em que não se falava sequer deste modelo de planeamento e fui socializado no planeamento por unidades didácticas, gostava de saber quais são os modelos de planeamento que actualmente se praticam nas escolas. É bom dizer que entre estes dois modelos possíveis há ainda outros como por exemplo o modelo das épocas desportivas (Educação Desportiva - Siedentop) que eu acho extremamente interessante e mais aplicável no ensino secundário pela existência das opções. Há ainda outros modelos híbridos na prática, como aquele de se ir conjugando unidades em alternância, à medida que os "roulement" obrigam a mudar de instalações e estas não se prestam à polivalência.
Que modelos de planeamento se praticarão, estatisticamente falando, nas nossas escolas?
Que modelo tu, caro leitor, praticas?
Que modelo achas teoricamente melhor?
Que modelos são praticáveis?
PS. É interessante notar, por exemplo, que num país como a França, com uma tradição, uma prática e uma teoria da Educação Física mais "trabalhada" por vários decénios, o modelo preconizado pelos programas e pelos projectos pedagógicos de EF seja o das unidades didácticas. Menor latitude de modelos, portanto.

dezembro 10, 2006

contributo para a reflexão

Desde que me conheço como professor que acho o currículo de Educação Física fantástico, já que dá para fazer tudo e, para não fazer nada. Partamos de dois exemplos, um professor tradicional e um outro que chamarei do professor d’hoje:

a) O professor Tradicional - Tem 36 semanas de aulas, que geralmente acabam por ser 32, multiplicando por 3 segmentos de 45 minutos (para o básico) dá 108, dos quais tem que retirar cerca de 7 a 8 aulas para apresentação, auto-avaliação e testes, ficando em 101 segmentos. Este colega divide pelas seis modalidades tradicionais (Basquetebol, Voleibol, Andebol, Futebol, Ginástica e Atletismo) dá cerca de 16, 8 segmentos de quarenta e cinco minutos. Trata-se de um professor que apesar de tradicional é metódico, honesto e competente na forma de abordar as suas aulas, tem várias estratégias de abordagem de temas para rentabilizar as suas aulas. Dá conteúdos comuns às modalidades em aulas comuns. Documentou-se na didáctica dos Jogos Desportivos Colectivos e conseguiu encontrar um meio termo entre o movimento do antigo FCDEF e o defendido a Sul, pela FMH com a Sistemática das Actividades Desportivas. Enfim o professor tradicional mesmo utilizando todas essas estratégias tem várias questões a colocar:

1º Como deve fazer a sequência do ensino das modalidades, uma vez que nem todos os conteúdos são comuns?

2º No final de cada modalidade o que é que o aluno aprendeu e como fará para que essa aprendizagem seja douradora ou, no mínimo, que aguente até ao próximo ano lectivo em condições de iniciar uma nova “Unidade Didáctica de Continuação de Conteúdos” (quando pensa no caso da Ginástica Desportiva deita as mãos à cabeça);

3º Onde colocar todos os outros conteúdos que devem ser abordados, nomeadamente os que vêm na pagina do currículo e que tem a ver com as questões dos hábitos de higiene, educação para a saúde e outros, tais como o fair-play, o doping…

PERGUNTA FINAL: Será que este tipo abordagem promove o objectivo máximo consignado em programa que é: contribuir para que os alunos ganhem hábitos de exercício físico que perdurem ao longo da vida?

b) O “professor d’hoje” parte de um princípio básico de que os jovens querem actividades diferentes, sejam elas de interior ou de ar livre e com as mesmas 101 aulas adiciona as seguintes modalidades: patinagem, dança, jogos tradicionais, desportos de montanha e orientação, e ainda tenta levar os jovens à natação, mas a Câmara não arranja transportes e a Ministra não quer que a escola gaste dinheiro com coisas dessas. A este professor “d’hoje” algumas questões se lhe colocam:

1º Como não quer deixar de abordar as modalidades tradicionais ao juntá-las todas e dividir pelos 101 segmentos dá-se conta que fica com cerca de 10 para cada modalidade, que conteúdos seleccionar em cada uma?
2º Depois de seleccionados os conteúdos que estratégias abordar para rentabilizar as aulas?
3º Que objectivos seleccionar no sentido de serem realistas e coerentes com um planeamento?
4º No final do ano o que é que os alunos aprenderam? E o que aprenderam de forma consistente ao ponto de, após o longo período que estiverem sem fazer uma das dez actividades, estar capaz de dar um passo em frente no sentido de progredir nessa mesma modalidade?
PERGUNTA FINAL: Será que este tipo abordagem promove o objectivo máximo consignado em programa que é: contribuir para que os alunos ganhem hábitos de exercício físico que perdurem ao longo da vida?


As perguntas finais são as mesmas, muitas outras ficam por fazer, esta reflexão é fundamental para que se entenda um currículo que efectivamente serve para fazer tudo e para não fazer nada, vai daí o achar fantástico. Levo dezassete anos de aulas e de leituras, onde tento me actualizar e estar ao corrente das estratégias mais recentes, levaram-me a sentir a necessidade de adequar ao currículo à disciplina e a disciplina aos reais interesses de formação dos alunos.

NOTA: e não coloquei a questão naquele jovem que, tal como eu, quando entrou para o 2º ciclo já queria ser “professor de ginástica”….como se concilia o interesse dos que querem “correr para a licenciatura nesta área” quando numas Universidades os pré-requisitos são quase o que se pede aos atletas de média competição e noutras pouco valor se dá a esses em detrimento de um grupo de saberes ao nível mais teórico-conceptual?

novembro 23, 2006

O Paulo é aluno do 12º ano do Curso Tecnológico de Desporto. Enquanto vagueava pela Internet descobriu este blogue e deixou-se levar pelo texto do colega Amândio. Depois de se certificar de que eu fazia parte desta equipa, trocámos algumas impressões acerca do conteúdo do blogue. Desafiei-o a escrever lançando o seu olhar sobre a disciplina de Educação Física. Ele aceitou!

Viver a Educação Física

A disciplina de Educação Física encontra-se em profunda decadência e o ambiente em redor desta é muito pouco salutar, visto que a desacreditação e a descrença por parte da generalidade dos alunos acentua-se de forma alarmante.
A EF é encarada pela grande maioria dos alunos de uma forma bastante similar àquela que era preconizada na Grécia Antiga pelos grandes filósofos da era modera, onde estes consideravam que a destreza motora era algo que se destinava única e exclusivamente aos escravos remetendo para as actividades do intelecto as únicas aptidões a desenvolver.
Esta evocação associa-se na plenitude à forma de como a maioria dos alunos encaram a EF, isto é, como uma disciplina de mera diversão ou de um aborrecimento enfadonho desprovida de qualquer tipo de vantagens e benefícios para os alunos.
Apesar de algumas das inovações incutidas nos programas de Educação Física, como por exemplo o modelo de educação desportiva e o modelo de jogos de ensino para a compreensão, terem proporcionado notórias melhorias na qualidade de aula, a grande maioria dos esforços direccionados para a melhoria da EF têm-se descentralizado da essência do problema.
Para nós, alunos, o cerne da questão reside na forma de como é encarada a disciplina e a principal causa da constante decadência de que a EF é alvo reside na desacreditação e na descrença existentes nos professores de Educação Física.
Todavia esta decadência não se circunscreve somente aos professores, dado que os alunos também têm uma quota-parte de responsabilidade na questão, visto que não podemos estereotipar a desacreditação a todos os professores, pois é um facto, que existem professores que acreditam e vivem a EF mas o seu esforço e dedicação não é retribuído pelos alunos.
No entanto é necessário e ao mesmo tempo urgente que a generalidade dos professores de EF modifiquem a sua forma de encarar a disciplina, pois se o fizerem desencadearão nos alunos sentimentos recíprocos e só desta forma poderemos caminhar, juntos, em prol da melhoria da EF.

Professores, por que não encarar a EF com seriedade, empenho, motivação e acima de tudo com orgulho e prazer na actividade que exercem?

Professores VIVAM e SINTAM a Educação Física.

Paulo Gonçalves
23/11/06

novembro 08, 2006

Quando os canários deixam de cantar

Ennis (1) utilizou a metáfora dos canários na mina de carvão para chamar a atenção para os sinais de alerta sobre o estado de saúde dos programas de educação física. Assim como os mineiros levavam um canário numa gaiola para o fundo da mina, porque ele deixa de cantar quando o ar da mina começa a ficar contaminado de gás metano, também os professores de educação física devem estar atentos aos sinais de desafectação de alguns estudantes como sintoma de que algo não vai bem na qualidade da aula.
Apesar de vários estudos revelarem uma atitude positiva da maioria dos alunos (da ordem dos 80% ou mais) face à EF são patentes indicadores de desafectação ou rejeição por parte de um número não negligenciável de alunos. Num inquérito recente a alunos do 12º ano (2) constatou-se que cerca de um quarto dos alunos de ambos os sexos classificam a disciplina de educação física como pouco ou nada importante e que a probabilidade de uma rapariga rejeitar a frequência da EF, caso esta fosse voluntária, era quase o dobro da probabilidade dos rapazes (31.87% vs. 16.56%).
A heterogeneidade de sexo, níveis de habilidade, atitudes, interesses, motivações e expectativas acarretam dificuldades à concretização dos programas de educação física. Tradicionalmente, a educação física tem procurado responder a esta dificuldade por meio de uma oferta curricular diversificada, constituída por um conjunto de pequenos blocos de ensino das modalidades desportivas, com destaque para os jogos desportivos. Esta organização curricular é, no entanto, apontada como pouco favorável ao desenvolvimento e consolidação das aprendizagens e a um tratamento consistente e significativo das matérias de ensino.
Uma abordagem ao ensino do desporto marcado pela superficialidade, pela brevidade, pela descontextualização, pela baixa exigência, pela ausência de desafio e de horizonte corre o risco de perder o significado e ficar marcado pela alienação do jogo, pela trivialidade, pela repetição, pelo aborrecimento. Em muitas escolas os professores de educação física desistiram de projectar propósitos pedagógicos, deixando a aula transformar-se num espaço de recreio, muitas vezes pouco convidativo, ou mesmo hostil, à participação dos alunos de mais baixo nível de habilidade e das raparigas.
Vozes críticas assacam as responsabilidades à falência do modelo desportivo tradicional e referem a existência um desencontro radical entre os valores, os conteúdos e formas de abordagem do desporto na escola e os valores e expectativas da cultura pós-moderna da juventude actual. Embarcar num movimento anti-desporto é porém o maior dos logros em que se pode cair. O tratamento do desporto na escola e fora dela não dispensa a crítica, não dispensa a necessidade de actualização e de busca de novas abordagens; precisa delas para ajustar o rumo dos seus propósitos, para ultrapassar os obstáculos e os equívocos que tolhem o seu potencial formativo.
Vários modelos alternativos para o ensino dos desportos têm vindo a ser desenvolvidos, testados e disseminados com sucesso, nomeadamente o modelo de educação desportiva; o modelo de ensino dos jogos para a compreensão; o modelo de competência nos jogos de invasão. Outros autores preferem deslocar o foco do currículo das actividades ou modalidades desportivas, tomadas cada uma per se, com a sua própria lógica de desenvolvimento do ensino, para um foco orientado para temas integradores, como seja “o desporto para a paz”, ou um conjunto de temas transversais como sejam a literacia física e motora, a actividade física, saúde e condição física, a competição e cooperação e o desafio.

(1) Ennis, C. D. (2000). Canaries in the coal mine: Responding to disengaged students using theme-based curricula. Quest, 52(2), 119.
(2) Brandão, D. (2002). Expectativas e importância atribuida à disciplina de educação física: estudo comparativo por genero nos alunos do 12º ano de escolaridade nas escolas secundarias do concelho de V. N. de Gaia. Dissertação de Mestrado. FCDEF.UP.

outubro 30, 2006

ADE

Agarrando na frase com que o Miguel terminou o seu texto sobre o Desporto Escolar, concluindo que “o calendário político anda cada vez mais desfasado da realidade escolar!”, passo para outra proposta daquele documento, que revela um humor nonsense altamente corrosivo.

Diz o documento “Os CDE ou outras estruturas desenvolvidas em cada Escola e Agrupamento de Escolas em função do projecto educativo e das respectivas condições, são também instrumentos privilegiados para a competição externa, que pode decorrer, preferencialmente, através das Associações Desportivas Escolares (ADE) constituídas por iniciativa das próprias escolas e dos profissionais afectos ao Desporto Escolar.”

Na reunião em que estive, a insistência neste aspecto foi clara: deve ser promovido o incremento das iniciativas da competição externa organizada pelas Escolas e pelas suas ADE. A visão para o futuro, de Luís Capucha, Director Geral da DGIDC, prevê que a base da actividade interna e externa, incluindo os quadros competitivos, seja da iniciativa das escolas, trabalhando em rede, desempenhando as estruturas do ME funções de coordenação e apoio, acompanhamento e organização subsidiária dos quadros competitivos, proporcionando apoios, não em função de padrões uniformes decorrentes de uma estrutura hierarquizada, mas em função do mérito dos projectos de candidatura.
Nestes apoios, estes senhores englobam tudo o que chamam recursos… e nos recursos eles abarcam, não apenas as verbas necessárias à implementação do projecto da escola, mas também os créditos horários necessários para se ter os professores suficientes a essa implementação.

Esta panóplia de condições interligadas parece-me um bom princípio do fim do Desporto Escolar. Quantas escolas têm Associação de Estudantes (será para pôr em prática aquela bela lei sobre o associativismo, promulgada este ano?!) com capacidade de mobilização e organização para dinamizar o quadro competitivo? Quantos estudantes estão, actualmente, dispostos a tudo o que isto implica? Quantas escolas têm capacidade para estabelecer um quadro competitivo entre si? Quantas escolas, perto umas das outras desenvolvem as mesmas modalidades? Estas e outras perguntas suscitam-me muitas dúvidas quanto à concretização da visão do futuro de Luís Capucha.

Entretanto, no meu Concelho, promovemos uma reunião de coordenadores de departamento, de desporto escolar e concelhos executivos das escolas. São 18 e estiveram representantes de 16. Nessa reunião foi proposto que, para colmatar o prejuízo que possa advir daquela proposta do ME, nos constituíssemos em Associação Desportiva de Escolas, tentando gerir entre todas, a organização de uma futura actividade externa dentro dos parâmetros previstos no programa de DE. Na reunião, esteve também um representante da Autarquia, a quem foi perguntado que contribuição poderia dar se avançassemos com um projecto deste tipo.

Que vos parece este caminho?

outubro 29, 2006

"O OUTRO JOGO"

I

Diz ele que não sei ler
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.

II

P'ra escolas não há bairrismo.
Não há amor nem dinheiro.
Porquê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!

III

Desporto e pedagogia
Se os juntassem como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos.
O que um faz, outro atrofia.

IV

Da educação desportiva,
Que nos prepara p'ra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.

V

E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e a torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.

VI

Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo, o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.

VII

Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.

VIII

E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto.

In Inéditos, Loulé
António Aleixo

outubro 23, 2006

O Bluff

O governo anunciou uma mudança no desporto escolar. O secretário de estado prometeu um maior investimento e ousou afirmar que agora o desporto escolar passará a afazer parte dos projectos de escola. Em Julho, no lançamento do ano lectivo e antes das férias, os departamentos de educação física receberam as informações dos conselhos executivos que derivavam das regras definidas pelo Despacho nº 13599/2006 de 28 de Junho [distribuição dos créditos horários].

A escola abriu as portas em Setembro e instalou-se a confusão. Sem programa e sem informações claras, o desporto escolar paralisou em muitas escolas do país.

No início de Outubro apareceram os programas mas persistem as ambiguidades.
“[…] As candidaturas ao Programa (expressas nas fichas de candidatura anexas) são realizadas em duas fases. A primeira tem como objecto a Medida 1 (actividade interna) e as candidaturas foram apresentadas, junto das DRE pelos Estabelecimentos de Ensino até ao dia 16 de Outubro.

A Fase 2 de candidaturas, a decorrer em período a anunciar, contemplará as candidaturas à Medida 2 (actividade externa) e novas actividades a integrar na Medida 1 com vista ao total aproveitamento dos recursos disponíveis.

As candidaturas a cada uma das medidas são apreciadas pelas DRE e negociadas caso a caso com os estabelecimentos de ensino, após o que serão submetidas a aprovação por parte da Comissão de Acompanhamento do PDE06/07.” In: Programa do Desporto Escolar
Enquanto decorre o processo de apreciação das candidaturas, os professores envolvidos nos projectos do desporto escolar são desviados e engrossam a lista dos professores disponíveis para as substituições. E a confusão persiste.

É verdade que muitos conselhos executivos ajudaram à festa. Por falta de audácia ou receio do “fantasma” da inspecção, não souberam aproveitar uma brecha no programa, que passo a citar: “Sempre que os estabelecimentos e ensino reúnam as condições necessárias, as actividades e as modalidades propostas devem ter início a partir do primeiro dia de aulas, devendo, pelos mais diversos meios (ordem de serviço interna, informação às turmas, cartazes, etc.), ser feita uma alargada divulgação das actividades e horários de funcionamento.

A tutela não fez o trabalho de casa. Fez um bluff. E a meu ver, a reforma do desporto escolar acaba por ser inevitável e urgente, mas não pelas razões invocadas pelo governo. Os motivos de ordem conceptual deveriam ter colocado as razões de natureza economicista em 2º plano. Mas não foi isso que aconteceu. Exigia-se um desporto escolar verdadeiramente inclusivo sem equívocos e ambiguidades organizacionais, mas a opção recaiu na manutenção do sistema piramidal iníquo. Apesar de se evocar a actividade interna como a bandeira do DE, esta nova versão continua a privilegiar a actividade externa. E não precisamos de grande acuidade analítica para confirmar esta tese. Basta observar a redução horária dos professores com actividade externa e interna para percebermos o que é verdadeiramente importante para o ME.

Cada vez mais me convenço: o calendário político anda cada vez mais desfasado da realidade escolar!

outubro 17, 2006

Representação profissional…

“O tema de investigação do conhecimento pedagógico do conteúdo procura repor uma perspectiva integral do triângulo didáctico (professor, aluno, matéria) na investigação do ensino, tentando reequilibrar e assegurar a atenção sobre a interacção dos três lados do triângulo.” (Amândio Graça, 2001)(1)
Esta citação do professor, colega e amigo [atrevo-me a referenciá-lo deste modo] Amândio Graça, foi retirada de uma obra que compilou trabalhos apresentados no 1º Congresso Internacional de Ciências do Desporto, organizado pela FCDEF. O conhecimento pedagógico do conteúdo: o entendimento entre a pedagogia e a matéria é um estudo que se enquadra numa linha de investigação didáctica que toma como critério de referência o professor.

Ao evocar este trabalho, sacrificando-o a este pequeno excerto, não quis [porque isso pode ser feito, e com toda a propriedade, pelo autor ;)] destacar os principais resultados e o alcance que se registaram [ou não] nos programas de formação de professores de Educação Física. Ao evocar este trabalho quis mexer num aspecto que tem sido negligenciado pelos professores de educação física, na escola situada [e que a investigação se encarregará de refutar ou confirmar]:
No reportório de “conhecimentos” que devem ser adquiridos e reformulados ao longo da vida profissional do professor, o conhecimento do contexto ocupa um lugar central porque é aí que a aplicação dos restantes conhecimentos adquirem sentido. O conhecimento do contexto [dos alunos, da comunidade, do sistema educativo, da escola] exige do professor uma vigilância constante sobre tudo e todos os que o rodeiam. Regressando novamente ao excerto, não é possível a um professor, de educação física ou de outra disciplina qualquer, desenvolver com proficiência o seu trabalho sem participar, agindo sobre os contextos de prática. Ora, estamos num momento de viragem em que a discussão do ECD apela a um “novo” professor. Será admissível que alguém se possa dar ao luxo de desligar o seu sistema de vigilância e passar ao lado desta alteração contextual sem bulir na sua capacidade profissional?

(1) Graça, A. (2001). Educação Física e Desporto na Escola - Novos desafios e diferentes soluções. Porto. Paula Botelho Gomes e Amândio Graça Editores - FCDEF.

outubro 08, 2006

provocando...

(...) Vamos começar educando nossas crianças para uma convivência pacífica num mundo cheio de evasão provocada pela ânsia de atingir os objectivos da riqueza de maneira acelerada num curto espaço de tempo. Vamos educar as pessoas para que o corpo físico, esse instrumento da existência, seja preservado de maneira saudável, aproveitando-se de todas as fases, inclusive ingerindo bons alimentos para viver bem (...) in Amazónia – entre o esporte e a cultura de Jurema e Garcia pp.170

O livro donde tirei este pequeno enxerto deu a machadada final num conceito de Educação Física que há muito vinha abandonando. Não que o livro defenda o mesmo que eu (não ouso afirmar tal coisa), mas porque enquadra, mesmo que inocentemente, o que há muito tempo que vinha perguntando a mim mesmo porque razão insistia para que todas as raparigas jogassem futebol, quando algumas delas pura e simplesmente odiavam, ou porque insistia com os rapazes que não queriam fazer dança que o fizessem.


Sendo um dos objectivos da disciplina, criar hábitos de actividade física que perdurem ao longo da vida a minha forma de agir, no mínimo era patética. Mesmo que fosse para combater o preconceito existente acerca da ideia (errada)de que o futebol é para “gajos” e a dança para senhoras. Até porque, não me parece uma forma rentável de combater preconceitos, obrigar os jovens a participar em actividades quando estas geram esse tipo de sentimentos (imaginem obrigar os cidadãos que têm preconceitos acerca da homossexualidade a terem relações homossexuais!!!).



Desde há uns anos para cá libertei-me dos preconceitos da minha formação inicial e tento sempre mudar mentalidades através do diálogo e de uma preparação cuidadosa das minhas aulas de forma a desenvolver uma mentalidade livre de amarras sociais.

outubro 02, 2006

"O REI DE ÍTACA"

"A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado"

Sophia de Mello Breyner Andresen
In O Nome das Coisas, Caminho

setembro 29, 2006

Em inicio de mais um ano lectivo…

Deixo em homenagem de algumas pessoas extraordinárias que foram também meus professores, uma citação de Richard Bach, porque eles apesar de brilhantes, não apenas a meus olhos, conseguem ter a humildade para ser assim… para partilhar um sorriso, brincadeira e boa disposição, doutorados, mestres, médicos ou apenas licenciados neste magnifico curso… conseguem ser terra a terra. Conseguem ensinar-nos e fazer de nós melhores estudantes, profissionais… e pessoas. Não são todos que marcam, mas há alguns que deixam em nós aquela frase, “como dizia o meu professor…”


E então, para nunca esquecer:

Ensinar é lembrar aos outros que eles sabem tanto quanto você.
Vocês são todos aprendizes, fazedores, professores.

Richard Bach

setembro 23, 2006

EF e AFD no 1.º CEB

O professor Rui Neves, que já tivemos o prazer de ter como visitante deste blog, escreveu para a revista Horizonte de EF e Desporto (que todos nós na EF assinamos), um artigo sobre as Actividades Físicas e Desportivas que são incluídas nas chamadas Actividades de Enriquecimento Curricular do 1.º ciclo do ensino básico. É um artigo a ler por todos nós colegas de EF, assim como os artigos que o mesmo autor escreveu para a revista A Página da Educação e que qualquer um pode procurar e ler online.
Concordo com quase tudo o que o autor refere nos seus artigos. Apenas vou fazer alguns comentários que penso acrescentarem alguma coisa:
-é preciso esclarecer o conceito de actividade Desportiva para alunos do 1.º Ciclo. Não creio que muitas das práticas actualmente existentes no seio da EF ou de complementos curriculares se possam chamar educativas, o que desmerece a preparação científica, pedagógica e humana de alguns dos seus "dadores". Penso que o professor Rui Neves conhece e se preocupa por esta situação;
-na recente definição, pelo Ministério da Educação, dos mínimos horários para o estudo do Português, da Matemática e do Estudo do Meio, ficou de fora, sem horário determinado, a EF. Se isto não é desvalorização...
-certos caminhos recentes de exploração de mão-de-obra barata (a 5/6 euros à hora, a recibo verde, por certas câmaras municipais merecem o nosso mais vivo repúdio).
Acho pertinentíssima a auto-responsabilização que o professor Rui Neves faz das escolas, dos agrupamentos e dos seus professores de EF em particular, no enquadramento destas actividades, e o repúdio, se não interpreto mal, de formas "valetudistas" de procura externa de enquadramentos, quantas vezes subordinadas a interesses comerciais, assim como da desresponsabilização das escolas e dos seus professores por este tipo de actividades. Assim tenham, os professores, condições apropriadas e responsabilidades para as exercer.

julho 12, 2006

Pausa

Retomaremos o debate, presumo que será ainda mais animado, em Setembro. Que esta pausa regenere o entusiasmo e o prazer da discussão.
Até breve!

julho 02, 2006

Alienar uma aula de Educação Física…

O Decreto-Lei 6/2001 [aprova a reorganização curricular do ensino básico] introduz pela primeira vez a noção do tempo útil de aula. Como garantir em Educação Física (EF) esta situação?

Esta questão foi colocada no Fórum de Reorganização Curricular promovido pelo DEB na época em que se realizava a discussão pública do referido documento. Discutia-se a introdução de blocos lectivos de 90 minutos e a questão foi suscitada porque à disciplina de EF estava reservada uma carga horária semanal de bloco e meio.

Um dos colegas participantes no fórum evocara Carreiro da Costa [Horizonte nº1 (1984)] que citando Pieron aclarava as dimensões da noção de tempo no processo ensino-aprendizagem. Por seu lado, o próprio Pieron (1982) citava outro autor, Zakajsek, que constatara que ¼ do tempo programa era gasto no balneário.
Assim, segundo o Pieron, tempo útil (ou tempo funcional) é o tempo que resta depois de descontado o período que os alunos despendem no balneário. É o tempo que os alunos realmente passam no ginásio ou no campo de jogos.

Um olhar empírico para a forma como a questão foi resolvida pelas escolas encontra, arrisco a dizê-lo – invariavelmente -, uma solução administrativa que não garante o cumprimento do tempo útil da aula de EF.
No ½ bloco de aula semanal a que os alunos têm direito, há muitos casos [e bastava um para ser grave] em que os alunos permanecem no ginásio/pavilhão/campo de jogos um tempo inferior a 30 minutos.

A redução perversa do tempo de aula de Educação Física é, a meu ver, um factor de alienação da aula de Educação Física.
O que fazer para inverter esta situação?
Como transformar este tempo de aula num tempo útil para o aluno?
Quais as implicações na gestão do programa de Educação Física?

junho 27, 2006

desafios ao trabalho em equipa

Num livro há poucos anos publicado em Portugal, Fullan e Hargreaves (2001)(1) apontam o individualismo como o traço mais frequente da cultura docente e consideram que o individualismo dificulta o progresso dos professores na medida em que lhes limita as possibilidades de aprender com a experiência e o apoio dos outros professores. Os autores advogam as vantagens do trabalho em equipa, da colaboração e da partilha de experiências e materiais, e dos efeitos positivos que podem gerar na redução das inseguranças e receios, na reflexão e renovação das práticas e no crescimento profissional. Todavia não deixam de alertar para os efeitos perniciosos de uma colegialidade artificial, imposta, controlada ou burocratizada.
As orientações políticas do ministério da educação apontam para a valorização do trabalho em equipa. Mas aquilo que até poderia ser uma oportunidade de aprofundamento da profissionalidade docente pode vir a transformar-se exactamente no seu oposto, num maior refinamento dos mecanismos de controlo da actividade do professor, redução da sua autonomia e da sua capacidade de decisão.
Estou convencido que o trabalho nas escolas, e particularmente no âmbito da educação física, ficaria muito a ganhar se os professores e os seus grupos cuidassem melhor do trabalho em equipa, sem anular a individualidade de cada um, nem muito menos prescindir do seu empenhamento individual. Mas tenho as maiores dúvidas relativamente à colegialidade imposta por decreto e com horas marcadas no calendário dos professores.


(1) Fullan, Michael & Hargreaves, Andy (2001) Por que é que vale a pena lutar? O trabalho em equipa na escola. Porto: Porto Editora.

junho 21, 2006

Código de ética profissional

Em Novembro realizar-se-á o VII Congresso Nacional de Educação Física. Um dos objectivos gerais, traçados, é o de “Estabelecer as bases de um código de ética profissional comum às dimensões da Educação Física e orientar o seu desenvolvimento”. (in: http://educafisica.blogspot.com/)

Sobre este assunto teço algumas considerações que espero sejam ponto de partida para uma troca de impressões sobre o tema.

Será que a elaboração de um código ético, definindo, como expressão escrita, a deontologia profissional e a sujeição de uma classe a esse código, torna pública a garantia da sua honestidade, assegura o prestígio da sua profissão, contituindo a expressão de uma autonomia profissional, e é inseparável de uma conquista social e profissional de dignidade e respeitabilidade?

Será que a elaboração dum código, deste tipo, não deveria abranger e solicitar a participação do maior número de profissionais possível, já que a construção de um quadro de referências profissionais e deontológicas, com o objectivo de estabelecer parâmetros para a definição de um estatuto profissional, só terá razão de ser e só será viável, na medida em que for o resultado, da reflexão e do pensamento de uma classe e, na medida em que os seus profissionais o sentirem como uma imanação e uma necessidade suas?

Contudo, um código, não pode surgir como gerador de princípios; terá sim, que ser elaborado, consignando, no seu texto, a salvaguarda dos princípios, já defendidos pela classe, na sua história profissional. Tem que considerar, em simultâneo, os valores do indivíduo e os da classe, não podendo, no entanto, ser limitativo da liberdade de acção profissional. Deve ser capaz de, no seu texto, conter os princípios gerais que garantam a possibilidade de "tornar possível o que cada um traz em si" e ao mesmo tempo conter um conjunto de normas que salvaguardem a "moral da profissão"

Todavia, considerando que "os valores são verbais, não são substantivos, são dinâmicos, não cristalizam", é necessário prever que o código aprovado não é imutável e que portanto, deverá ser sujeito a debates periódicos, para reequacionar as normas nele inscritas e adaptá-las às diferentes variáveis da profissão. Por esta razão, um código deontológico não pode ser considerado como um ponto de partida, nem ser visto como um ponto de chegada, terá que ser sempre um ponto de passagem.

Também não podemos esquecer que, um código ético, não resolve problemas de quebras deontológicas, apenas as consciencializa, as delimita e as previne, por reflexão e conhecimento delas, e que a capacidade, das nossas organizações, de gerir a aplicação de um código profissional, é muito limitada dado que a sua influência se poderá estender unicamente aos seus sócios e, as sansões que possam ser administradas a um prevericador grave, nunca lhe impedirão o exercício da profissão, nem o afastarão da classe profissional.

Maria Lisboa

junho 11, 2006

Distracção, concordância, lentidão ou esperar para ver?

Há algumas semanas, a respeito do chamado Enriquecimento Curricular no 1.º Ciclo do Ensino Básico, a EF ou a chamada Expressão Físico-motora neste nível de ensino, sofreu uma revolução conceptual. Passou de obrigatória a opcional. De dentro das 25 horas terá saltado, assim como outras expressões (a expressão nunca me pareceu feliz) para as horas de Enriquecimento. O nome também poderá ter mudado, dependendo das opções existentes.
Depois de mais de um século de afirmação legal e nominal combinada com um desprezo prático, esperemos que este desprezo legislativo-temporal possa trazer algum interesse prático. Por mim ponho muitas reservas quanto ao sucedido.
Admira-me também que os professores de EF e as suas organizações ainda não se tenham pronunciado activamente. O que se passa? É distracção, concordância, lentidão, ou esperar para ver?

junho 06, 2006

666


depois de ler e ouvir as ultimas declarações da ministra sobre o "sistema" e sobretudo sobre os professores... julgo de digna homenagem o cartoon do Bandeira (hoje no DN)...

hoje, dia 6.06.2006... nada mais nada menos... que o famoso...

...Dia da Besta, ora nem mais.

(clicar na imagem para uma melhor visão da best..cof, cof.. ial.. cof.. imagem)

junho 04, 2006

Educação Física… até quando?

Não existirá uma tertúlia dedicada às questões do desporto e da educação física que não se tenha entretido, pelo menos uma vez, com a adequação ou falta dela da designação Educação Física.
Esta semana recebi a revista Horizonte e vi o assunto retomado pelo colega José Brás da Universidade Lusófona num artigo que intitulou “O terrorismo linguístico na Educação Física” [in: Horizonte, Vol. XXI, nº 122, pp. 37-38]. A morte da Educação Física para ser colocada em seu lugar a educação desportiva é uma medida que se quer apresentar como inovadora mas é, segundo este autor, um claro retrocesso: “O conceito de educação desportiva é mais pobre e limitado do que o de Educação Física”.
Num outro lado da contenda, Manuel Sérgio há muito que reclama o desajustamento desta designação e, muito recentemente, a Faculdade que me licenciou, a FCDEF [ex-ISEF], sofreu uma metamorfose estilística [e não só] deixando cair a Educação Física para se indexar unicamente ao Desporto.

Esta questão não se esgota numa mera operação de semântica. Há fissuras que se abrem e que envolvem questões políticas de afirmação de um determinado projecto universitário [Bolonha acicata a competição da instituição universitária], de uma identidade profissional projectada numa determinada denominação, de uma ideia de desenvolvimento para uma área social tão relevante como é a área da actividade física e desportiva.
O tempo é de ruptura, percebe-se. Para além da clarificação destas questões há que tentar perceber os efeitos deste vendaval discursivo na disciplina de Educação Física escolar.
Educação Física… até quando?

maio 29, 2006

da carga horária às aulas de apoio a EF

Há quem diga que a questão do aumento ou não da carga horária da disciplina não é fundamental porque mais do que a intensidade e o volume da carga o que importa é a qualidade. Outros acham-na perigosa porque receiam que os resultados do aumento da carga horária não produza os efeitos desejados e através desses resultados negativos, possamos recuar ainda mais do que a posição que temos actualmente.

As vozes que defendem o aumento da carga semanal argumentam com os indicadores e sugestões imanadas de organizações de renome (tais como o CDC dos EUA, ou a Organização Mundial de Saúde) que apontam, por questões de saúde, para que haja actividade física diária, com uma duração de, no mínimo, 30 minutos e com uma intensidade moderada a intensa. Outros, ainda, defendem que a actividade física não deve ser da única responsabilidade da escola, pelo que está bom assim e a sociedade que se organize, criando outras ofertas de actividade física.

A minha opinião é que, mais importante do que aumentar a carga horária é fundamental criar apoios à disciplina, onde os alunos possam recuperar o tempo perdido e superar limitações físicas capazes de os desmotivar para a adopção de estilos de vida activos. Aulas de apoio divertidas, dadas por professores sorridentes capazes de tornar essa hora diária num momento motivador, onde o aluno ganhe o gosto da prática pela prática.

maio 23, 2006

A propósito do que é e do que deveria ser a Educação Física

Falando em "inauguração", gostaria de lançar este desabafo acerca do qual muito tenho pensado, com a esperança de um dia poder ser levado a sério. Com efeito, ao longo dos anos tenho alterado a minha visão sobre o que é ou deveria ser a Ed. Física Escolar. Baseada na minha experiência de vida (ex-atleta de alta competição) e na minha paixão pela actividade física, quer pelo prazer de a realizar quer pelo "bem" que faz, julgo que deveríamos promover uma educação física escolar mais recreativa do que desportiva, promovendo a autonomia e o bem-estar dos alunos ao invés de criarmos situações de exclusão dos menos hábeis ou menos aptos fisicamente. Poder-se-ia privilegiar o jogo pelo jogo e a actividade física pela actividade - pelo prazer, pela interacção e sócio-afectividade, pelo movimento, pela autonomia - e deixar o desporto para os clubes, onde cada um se encaminha para o que mais gosta ou para o que tem mais jeito, sendo este orientado por quem sabe (realmente) e por quem ama verdadeiramente o desporto.
Ágata Aranha, Maio de 2006

O olhar da professora Ágata Aranha, em comentário ao texto de inauguração deste Blog, converge e diverge, ao mesmo tempo, do meu olhar sobre a educação física e o desporto. Converge no que tem de apelo à inclusão, a uma educação física não elitista, promotora da autonomia e bem-estar. Diverge porque não defino o desporto de uma forma tão restrita e selectiva, bem pelo contrário, vejo o desporto como algo que pode ser acessível a todas as pessoas. Há desporto mais orientado para o rendimento competitivo, regido por uma lógica mais selectiva, e desporto mais orientado para a participação, regido por uma lógica mais inclusiva.
Mas independentemente das convergências e divergências, importa evidenciar as preocupações com o que é mais importante salvaguardar, garantir, ou investir os nossos esforços. Creio que de uma forma mais ou menos articulada todos temos ideias sobre isto.
As pistas de discussão abertas são mais do que muitas, por isso sugiro que se possa começar pelo seguinte desafio: O que se poderá entender por uma educação física mais recreativa? Opor-se-á ela a uma educação física orientada para o desenvolvimento de competências?

maio 17, 2006

Alargamento da ocupação plena dos tempos escolares ao ensino secundário

“O alargamento ao ensino secundário da ocupação educativa dos alunos em todo o horário escolar contribui não só para a melhoraria dos resultados escolares, mas também para a criação de uma cultura de rigor e de exigência.”
(In http://www.professores.pt/)


“Para levar por diante esta medida na prática, as escolas secundárias vão beneficiar da experiência acumulada nos estabelecimentos do ensino básico, tendo em conta os ajustamentos que tiveram necessidade de efectuar e as soluções que encontraram para ocupação dos alunos quando faltava um professor. “

Entre as actividades educativas previstas na ocupação dos alunos surgem as aulas de substituição.
Na escola onde trabalho (eb 2,3), as aulas de substituição foram implementadas no presente ano lectivo e o grau de satisfação quer dos professores quer dos alunos é reduzido.
Para procurarmos “beneficiar da experiência acumulada” das escolas que já implementaram estas medidas, penso que poderia ser interessante partilharmos aquilo que sabemos do que é que se vai fazendo por aí.

maio 15, 2006

Um espaço onde se debata a Educação Física e o Desporto sobre vários olhares, alguns deles com um vastíssimo currículo é por si só de aplaudir. O aplauso é maior quando essas personalidades despendem tempo do pouco que lhe resta e que provavelmente deveria ser para a família. É com enorme orgulho que recebi o convite para me juntar ao grupo e confesso que só não tenho medo de não estar ao nível do blogue, porque recebi uma educação que me ensinou a olhar para os desafios como uma oportunidade de crescer.

Debater esta temática é fundamental por várias razões, desde combater os dogmas que, para o bem ou para o mal, continuam a ser isso mesmo, dogmas e que, por essa razão raramente são questionados. A reflexão que se fará por aqui só faz sentido se nos libertarmos e questionar mesmo o que é dado como adquirido. Questionar por exemplo: se o desporto faz bem; se é legítimo pedir o mesmo fair-play a jogadores envolvidos num espectáculo de milhões, da mesma forma como se pede num jogo de cadetes; questionar certezas que já foram mas que entretanto as mudanças societais exigem a sua reformulação.

Na minha opinião discutir a Educação Física e Desporto de peito e coração aberto à entrada de outras opiniões, outros ares, vale a pena. Pena será, se este blogue se tornar SÒ num sítio de mulheres e homens do desporto, pois fechar-se-á antes de se ter aberto, diminuindo drásticamente o seu potencial interventivo. Se isso acontecer, a discussão terá a mesma importância da chuva que choveu há cem anos e ainda por cima não passou de um orvalho que nem regou as ervas daninhas da relva dos meus tetra-avós.

maio 13, 2006

1º olhar

Recorro à actualidade para lançar o meu primeiro olhar. A educação física tem sido objecto de discussão no fórum promovido pela Direcção Geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular, criado expressamente para debater a reorganização curricular do ensino secundário. Há um elemento novo nesta reorganização e que se prende com o facto da classificação dos alunos à disciplina de educação física ser considerada para efeitos de transição de ano e de cálculo da média de acesso ao ensino superior.

Quais os argumentos que se devem evocar para legitimar a alteração [passível de ainda ser rectificada]?

Quais os efeitos da alteração na afinidade dos alunos com a disciplina?

Será sustentável a afirmação de que os professores de educação física terão outro comprometimento com a disciplina?

maio 12, 2006

Inauguração

Vejamos como esta definição de blogosfera se acomoda ao momento de criação que agora se inicia:
A blogosfera, assim como é chamado o conjunto de blogs, vai agregando diversas esferas, que se “enroscam”, se ligam com toda a força e efemeridade da internet, construindo assim uma rede nada esférica, que agrega toda forma de expressão, todo objectivo, toda forma de ver o mundo. (..)” (Adriane)

O blogue Educação Física e Desporto - Diferentes Olhares? emerge deste movimento amplo de discussão e de expressão da cidadania. Será esta a primeira razão pela qual 5 profissionais de educação física decidiram juntar-se dirigindo os seus olhares para uma temática que lhes é cara.
A segunda razão invade o domínio da autonomia. Mulheres e homens de acção, os professores de EF e do Desporto, não costumam debater publicamente as suas questões. Muito fica no recato privado das práticas, deixando o espaço público para as fórmulas, quantas vezes dogmáticas de alguns, poucos, teorizadores. Trazer as questões da EF e Desporto para o debate público é um convite à crítica, ao esclarecimento e à agregação de novos actores/autores.
A terceira razão pela qual decidimos partilhar este espaço é de ordem afectiva: O prazer e a paixão de pertencer a um “sub-grupo de criadores do Homem” parecem ser os denominadores comuns deste pequeno grupo de companheiros de viagem.

Os constrangimentos que derivam da nossa actividade profissional, que se presume ser intensa, determinaram a metodologia a seguir. Assim, cada um dos elementos da equipa desenvolverá, cíclica e rotativamente, um assunto à sua escolha. Contudo, a ideia da rotatividade não exclui a possibilidade de cada um dos membros residentes acrescentar, sempre que o desejar, novos assuntos e novas entradas.

Antes de concluir esta pequena apresentação do nosso blogue, não resisto a uma pequena provocação: Apelo à participação de todos, professores de educação física e de outras áreas disciplinares, quanto mais não seja para provarmos que a vida é feita de contrastes.